“O medo é a raiz de todos os males.” Reli a frase. Voltei a ler e mesmo assim não fazia sentido. Parei uns minutos, disposto a deixar que aquelas palavras me proporcionassem a revelação desejada. Não, nada de epifanias por encomenda.

Empurrei a cadeira para trás e estiquei as pernas por baixo da mesa. O tampo de madeira era um quadro de rabiscos obscenos, que entraram pelos olhos adentro, entranhando-se no cérebro. Olhei pela janela apanhando, pelo canto do olho, uma sombra que passava rasteira. Procurei-a, esfreguei os olhos e desisti, ao fim de uns segundos. Tantas horas debruçado sobre os malditos livros, no edifício dos serviços centrais da biblioteca da universidade de Évora, que já não via a direito.

Voltei ao caderno e rabisquei “a religião organizada é um fenómeno social curioso” em forma de notas pessoais, nada científicas na minha opinião. Parei, com a ponta da caneta de tinta azul sobre a última letra, ao ouvir unhas a dedilhar pelo chão. Olhei em volta. Continuava sozinho, entalado num dos recantos dedicados à secção de História. Esfreguei os olhos. Desejava poder largar tudo e ir beber um café a sério e sacudir, de vez, a corrente de ar gelado que me trespassava sem cessar há coisa de meia hora.

Saltei da cadeira com um valente “Foda-se!” ao som de um rosnar distinto. Virei a cabeça, à procura do animal de quatro patas, que se escapulira para dentro do edifício.

O “Shiuuu” da bibliotecária soou pelo espaço sem que o seu cabelo louro, armado como se fosse um capacete, aparecesse na curva do estreito corredor.

Arrepiei-me com a ideia de um cão andar por ali, um sítio que era suposto ser seguro. Sem conseguir ver o animal, apressei-me a fechar os livros, e arrumei as tralhas que acartava comigo para todo o lado. Hora de sair dali e ir apanhar ar e, com sorte, distanciar-me dos meses de pesquisa para o trabalho de mestrado que, era óbvio, me estava a deixar maluco.

Levantei-me do duro assento de madeira, amaldiçoando entredentes a desistência precoce, e foi quando senti dentes a cravar-se-me numa perna. Gritei de dor, agarrando os gémeos da perna direita com uma mão. Ao meu lado, nada mais do que ar ocupava o espaço.

Em dois segundos, o capacete louro da bibliotecária e uns reprovadores olhos azuis, espreitavam no topo do corredor.

– Desculpe. – murmurei, continuando a esfregar o inexplicável bocado de carne magoado.

A mulher colou o indicador aos lábios, esborratados dum ofuscante cor-de-rosa, em reforço do silêncio exigido. Voltei a murmurar um “Desculpe”, ignorando o seu cenho franzido, ao passar por ela em direcção à saída.

O sopro de vento gélido e os chuviscos que tingiam a rua impeliam-me a apressar o passo. O céu cinzento-escuro anunciava muito mais, pelo que optei por subir o empedrado até ao pináculo dos turistas sazonais que, em pleno Janeiro, não seriam mais do que um punhado nos cafés da Praça do Giraldo.

Os cães ladravam sem cessar, ecoando pelos becos minúsculos e ruas tortuosas, de paredes brancas decoradas com grossos frisos azuis. Subi a rua, esforçando o músculo ainda dorido quando um rosnar, bem perto, capturou a minha atenção. Numa rua sem nome, e sem memória, um bicho enorme coberto por um comprido pêlo preto mostrava-me as presas nas gengivas rosadas. Um cão do porte de um pequeno potro rosnava, esfregando as unhas da pata dianteira nas grandes pedras negras da calçada. Tremi e hesitei sobre o que fazer, consciente que nunca se virava as costas a um animal acicatado.

Senti o calor trepar-me à face. As mãos húmidas e escorregadias tentavam agarrar a alça da mochila que escorregava pelo ombro. Contrariei o impulso de correr rua acima, sentindo o sangue pulsar pelo meu corpo e a adrenalina, que emanava pelos poros, como um acepipe suculento para a besta à minha frente. Incapaz de desviar os olhos dos dele, soube que ia atacar.

Com um rosno que ecoou pela rua, o possante bicho avançou sobre mim. Petrificado, vi-o precipitar-se. Duas passadas mais e cair-me-ia em cima. Recuei e, naquele passo, o chão desapareceu debaixo do meu pé. Senti-me cair no vazio. O contacto repentino das costelas com algo duro fez-me rodopiar no ar.

Aterrei numa superfície, com um estrondo metálico, que cedeu um pouco com o impacto. Rolei até embater nas duras e molhadas pedras da calçada. Vi a escuridão avançar com uma dor lancinante na fronte que me tomou.

Acordei, sentindo-me roído até aos ossos, cego por penetrantes luzes brancas, e com o cheiro a formol a impregnar-me o nariz. Tentei mexer-me e soltei um grunhido pouco natural que agravou as tonturas que tinha.

Não estava mais na rua. Não sentia os dentes de nenhum cão. Aliás, pouco sentia para lá da cintura. Abri os olhos em duas frestas, contrariando as tonturas nauseantes, e procurei.

– Descanse. O médico já vem examiná-lo. – a enfermeira informou, ajeitando a manta sobre o meu peito.

– O que aconteceu?

– Está no hospital. Lembra-se de alguma coisa?

– Uma coisa enorme, preta. – murmurei, sentindo a adrenalina a passear nas minhas veias.

– Coisa? Foi atropelado por um carro cinzento.

– E o cão?

– Cão? Ninguém viu nenhum cão… Você atirou-se para cima do carro. Viu o condutor?

– Quem? Não vi nenhum carro.

– Mas ele viu-o. Atropelou-o… e voltou atrás para acabar o serviço. Foi até se soltar…  – a rapariga murmurou, com lágrimas no canto dos olhos.

O calor subiu-me às faces e, com rapidez que não supunha ter, atirei as cobertas para trás. Envolta em ligaduras brancas a minha perna não acabava onde era suposto. Para lá do joelho direito nada restava do que uma sensação fantasma dum membro que não existia mais.

– Viram-no?

– O condutor? Não.

– O cão! No beco, ele empurrou-me para a estrada.

– Beco? Não havia nenhum cão, nem beco. Descanse, isto vai ajudá-lo a dormir. – ela retorquiu, empurrando o êmbolo da seringa e despejando o líquido no tubo de soro ligado ao meu braço.

Deslizei para a inconsciência com a sensação de um roçar de pêlo no membro que já lá não estava. Adormeci com medo do que me aguardava e, ao mesmo tempo, com uma estranha satisfação ao sentir aquele toque onde nenhum outro se repetiria.

a raiz de todos os males

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