– Amanda, por favor!

No segundo a seguir, um rolo da massa cortou a noite e voou sobre a sua cabeça, não lhe acertando por uma unha negra. O utensílio acabou por aterrar no passeio com um ruído seco, para depois rebolar até ao meio da estrada.

– Não era bem isso que eu queria dizer, amor… – quase gemeu, olhando para a mulher que estava à porta de casa, já em camisa de dormir. Não seria de todo uma má visão, não fosse a vontade dela espancá-lo até à morte. Amanda, muito provavelmente, arranjaria forma de ele ser mordido por um daqueles zombies da TV só para ter pretexto de lhe dar com a frigideira na cara.

– Não me chames amor, Rafael, ou arranco-te os olhos! – ameaçou, com um esgar assustador. – Hoje podes bem dormir aí, e espero que morras de pneumonia!

Atirou com a porta, impedindo-o de terminar o que ainda nem começara a dizer. Porque é que ela nunca queria compreender que não podia dizer “não” aos amigos? E que aquele batom no rosto fora somente o beijinho de uma amiga?

Suspirou e, num passo resignado, foi apanhar o rolo da massa. Verificou se a madeira não tinha muitas mossas, caso contrário teria de lhe comprar um novo antes de pôr um pé em casa. A alternativa seria temer pela vida.

Sem muitas mais escolhas, Rafael caminhou pelo passeio, sem destino certo, de rolo debaixo do braço. O frio da noite infiltrava-se pelas mangas do blazer, gelando-o.

Acabou por estacar sob a luz de um candeeiro de rua, já antigo, esfregando as mãos e olhando para trás. Será que Amanda já se acalmara? Queria tanto voltar para os seus braços aconchegantes…

Quando se decidiu a fazê-lo, a luz do candeeiro sob o qual se encontrava tremeluziu. Olhou para cima, e assistiu a outro vacilar, seguido de faíscas e estalares. De súbito, um clarão explodiu por cima de si, ofuscando-o. Apressou-se a baixar a cabeça e tapou os olhos com o braço, enquanto o filamento de tungsténio da lâmpada ardia.

O inesperado ruído de engrenagens sob os seus pés alertou-o. Destapou o rosto, de sobrancelhas franzidas. As pedras do passeio estremeciam como se abaladas por um sismo e, sem aviso, começaram a desaparecer, a menos de um metro à sua frente, afundando-se no solo.

Com uma pontada de pânico, Rafael tentou afastar-se para a estrada. No entanto, quando deu um passo atrás, já não havia chão para pisar. Esbracejou incessantemente, todavia isso não o impediu de cair desamparado.

Por um momento fechou os olhos mas, não sentindo qualquer impacto, reabriu-os e olhou em volta. As paredes do buraco por onde caía estavam forradas de raízes que ali desembocavam, espelhos de reflexos retorcidos, retratos de nobres seculares, e janelas, onde tão depressa era dia como noite. Contudo, a gravidade puxava-o tão depressa que mal conseguia ver o que havia para além delas.

Pouco depois, tudo isso desapareceu. As paredes alargaram-se e passaram a estar cobertas de arame farpado. Engoliu em seco e encolheu-se numa bola, até que a queda teve um fim. O corpo embateu com toda a força numa rede e ressaltou ligeiramente. As cordas ficaram a oscilar, mas Rafael manteve-se muito quieto por uns segundos, de respiração acelerada.

Lá em cima, o buraco por onde caíra fechava-se, as pedras lembrando pequenas quadrículas. Cada uma movimentava-se através de um mecanismo acoplado à base do candeeiro que controlava vários pares de braços mecânicos cujo funcionamento até os próprios calceteiros deviam ignorar. Ou então eram os mestres de tudo aquilo.

Lá em cima, antes que o passeio se restaurasse por completo, a ponta de um sapato pontapeou o rolo da massa, fazendo-o cair atrás do dono.

Rafael não se desviou nem se protegeu a tempo e foi atingido na testa. Soltou um gemido dolorido e encolheu-se outra vez, levando as mãos à cabeça. Aquele rolo estava amaldiçoado, com certeza!

Ao fim de alguns segundos, respirou fundo e obrigou-se a sentar, de costas doridas. A rede lembrava uma enorme teia de aranha, não pegajosa, e a sensação de ele poder ser um insecto revolvia-lhe o estômago. O arame farpado acabava ao nível da rede, o que significava que, se houvesse uma saída, teria de ser subterrânea.

Coçou a cabeça e os braços, ao lembrar-se dos filmes de terror que Amanda adorava ver, com seres terríveis que habitavam o submundo e aguardavam nas suas tocas por devorar vísceras humanas. Arrepiou-se. Inesperadamente, trepar arame farpado até parecia tentador.

Num equilíbrio instável, pôs-se de pé, de braços meio abertos a oscilarem. Caminhou sobre as cordas, com cuidado para não prender um pé, e procurou uma forma de descer, apesar do medo. Alguma coisa colocara ali tanto a rede, como o arame farpado, e todo aquele aspecto de armadilha para moscas inquietava-o mais do que já estava.

Junto a um dos lados, um buraco mais largo no padrão da rede indicava-lhe que a saída deveria ser por ali. Abaixo desta, a pedra fora escavada em lugares estratégicos de forma a que ele descesse, ou alguém pudesse trepar.

Quando chegou lá abaixo, apressou-se a pegar na única coisa que parecia boa para usar como arma: o rolo da massa.

A partir dali havia somente um túnel por onde seguir. A escuridão não era tão densa quanto lhe pareceu vista da rede porque, espalhadas aleatoriamente, várias chamas esverdeadas ardiam no solo. Por um segundo ponderou se não seriam produzidas por algum gás tóxico e inodoro, e se não estaria prestes a morrer.

Deu um passo trémulo para o interior da gruta, esperando encontrar ossos e restos apodrecidos de carne. Mas não viu sequer um resquício de vida, ou restos dela, durante horas, até parar de súbito, com uma mão apoiada na parede.

O ruído de algo viscoso a ser arrastado pelo chão chegou até si, ecoando nas paredes. Engoliu em seco. Vinha aí qualquer coisa. O odor no ar revolveu-se, e um fedor pútrido encheu a atmosfera pesada, como se alguém com um hálito horrendo abrisse a boca e expirasse mesmo à sua frente.

Levou a mão ao rosto, tapando boca e nariz. Recuou um passo. Queria fugir, mas a curiosidade prendia-o. Ansiava por ver o que lá vinha.

Uma enorme sombra movia-se naquela direcção, arrastando o corpo bulboso demasiado depressa. Ergueu as sobrancelhas e arregalou os olhos quando viu a pequena cabeça negra.

– Que nojo… – murmurou, fazendo uma careta. As larvas pequenas já eram suficientemente asquerosas. Agora uma gigante, cujo corpo viscoso ocupava o túnel por inteiro, tornava tudo muito pior.

À medida que o corpo avançava, os fogos apagavam-se com um silvo terminal. Por cima da criatura havia só um halo de escuridão.

– Merda, merda, merda, três vezes merda. Gostava tanta que isto fosse o efeito do álcool… Porque é que não estou bêbedo? – perguntou-se, antes de dar meia volta e desatar a correr tão depressa quanto conseguia.

Contudo, antes mesmo de estar realmente cansado, os pés derraparam num trilho viscoso pelo qual ele não passara. Rafael esparramou-se no chão de forma espalhafatosa e deslizou até embater com os pés em qualquer coisa mole.

– Oh, infinita merda – gemeu, ao aperceber-se do que era.

A larva contra a qual chocara pareceu ter uma convulsão e rastejou um pouco para a frente. Desta vez, o ruído do revolver de entranhas que escutara não viera de si. Depois de ter chocado com o traseiro de um monstro, só lhe faltava que ele se abrisse.

Uma nova convulsão e um monte de dejectos fétidos caiu-lhe em cima, deixando-o soterrado até à cintura. Enquanto a larva se afastava, o estômago de Rafael deu uma volta e quase vomitou, mas ele não queria enterrar-se ainda mais em porcaria.

Choramingou qualquer coisa que nem ele percebeu, e arrastou-se de entre os dejectos da larva. Pelo caminho, as mãos tocaram em objectos que lhe lembravam ossos partidos e crânios.

Aquando liberto, respirou fundo. Porque raio é que aquilo lhe estava a acontecer?

À sua frente, o corpo da larva começou a dobrar-se no túnel. Estava a dar meia volta.

– Oh não, por favor… – implorou. A escuridão que a passagem do verme deixara não lhe permitia ver a cabeça da criatura, mas Rafael sabia que ela estava lá.

Levantou-se de um salto, quase voltando a escorregar, e empunhou o rolo da massa, como se fosse uma espada. Estava encurralado. A sua única hipótese era lutar.

Quando a criatura se aproximou, ele bateu-lhe na cabeça com força, afastando-a para o lado. Não houve qualquer outro som, para além de um impacto viscoso. Nem teve sequer certezas de que a magoara.

Tentou esquivar-se pela lateral do corpo da larva, no entanto o caminho estava completamente bloqueado. Como última tentativa, arriscou trepar por ela acima. Apoiou o pé na cabeça e agarrou-se às pregas escorregadias do corpo. Contudo a bicha sacudiu o corpo violentamente e atirou-o ao chão.

– Merda mais que infinita… – sussurrou, de olhos arregalados, quando a larva avançou sobre si, soterrando-o com o corpo mole.

Era demasiado pesada para ele conseguir escapar, e a viscosidade parecia fixá-lo melhor ao solo, quando há pouco o fizera escorregar. O ar começou a faltar-lhe, os membros deixaram de se mexer. A última imagem que se insurgiu na sua mente foi a de Amanda, de abraços abertos para o receber.

Um gemido baixo escapou-se por entre os lábios de Rafael. Moveu o corpo muito ligeiramente, só para descobrir que estava tão dorido como se tivesse levado uma carga de pancada.

– Está quieto, parvo. Ou ainda ficas pior.

Atreveu-se a semi-abrir os olhos. Mal perscrutou o candeeiro do tecto, percebeu que estava no seu quarto, em sua casa. Rodou um pouco a cabeça e mirou Amanda, sentada à sua cabeceira.

– Onde… onde estão as larvas? – sussurrou. A recordação estava demasiado nítida na sua mente. A falta de ar, a impossibilidade de fuga, o pânico…

– Larvas? Só se forem as das laranjas podres que estão na cozinha e ainda não deitei para o lixo. – Amanda dirigiu-lhe um sorriso amigável. – Para além de te teres embebedado, foste assaltado, ontem à noite. Ainda conseguiste chegar a casa, mas acho que não te lembras mesmo de nada. E deves ter tido um pesadelo dos melhores!

Pousou-lhe uma mão na testa, enquanto se ria com a ironia. A pele dela estava fria, mas isso até era agradável para a sua dor de cabeça. Talvez tivesse sido mesmo só isso, um sonho assustador. No entanto, ele não se lembrava de ter bebido assim tanto, pelo contrário. Suspirou. Era melhor aceitar o óbvio.

– Para a próxima ouve o que te digo – declarou Amanda.

– Vou ouvir… – garantiu, sem entusiasmo. – Posso ir até ao sofá da sala?

– Claro que sim. Se conseguiste andar até casa, também consegues andar até ao sofá. Eu vou preparar-te o almoço.

Arrastando os chinelos, lá foi até ao sofá. Sentou-se com cuidado e ligou a TV. Um sorriso vago desabrochou-lhe na face ao ver uma loira encantadora a apresentar um programa de culinária. Estava a preparar uma lasanha de soja com um aspecto dos deuses.

– Bem bom, já se comia – comentou, enquanto decorava os ingredientes.

Amanda espreitava-o, da porta da sala, desagradada com os comentários que ouvia, imaginando que se referiam à apresentadora e não à comida. Ele estava a precisar de outra lição.

Pelo canto dos olhos, Rafael reparou no novo porta-chaves que a esposa comprara, caído no sofá. Pegou nele por um momento e acendeu a lanterna portátil que pendia ao lado de um insecto de peluche.

– Que engraçado – comentou, apontando a luz ao rosto. – Tem uma boa luz. Melhor do que a daquele candeeiro…

Amanda sorriu levemente e voltou à cozinha. Quando pegou numa das laranjas podres e lhe deu uma dentada, um grito chegou até si.

Na sala, da base da lanterna brotaram vários braços articulados, muito pequenos, que atacaram os olhos de Rafael, até sobrarem somente as órbitas vazias.

Se ficasse sem os olhos durante umas horas, Amanda estava certa de que ele com certeza não voltaria a olhar para outra mulher.

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