O gelo no copo tiritou sob o líquido dourado. Bom whisky, um sofá confortável e um projecto interessante na mesa. Um bom dia para Doc, apenas obscurecido pela memória do comportamento errático de Joe. Esperava que fosse apenas temporário. Já perdera demasiados amigos para a demência, não tinha pressa nenhuma em aumentar a lista. Além disso, gostava do miúdo. Era um bom tipo, apesar de tudo, tal como o pai.

Temendo perder-se em memórias, bebeu um gole e voltou a concentrar-se no monociclo. Tinha de admitir, adorava aquela velharia. Não tivesse já arranjado um cliente para ele, que ainda por cima lhe pagaria para o restaurar, seria capaz de ficar com o brinquedo. Não o conseguiria usar, claro. Perdera a agilidade e equilíbrio para tal muito antes do sexagésimo aniversário. Mas não se importaria de tê-lo junto às restantes raridades que coleccionava.

Apesar do entusiasmo perante a peça, com o avançar da noite a luz do candeeiro começou a pesar-lhe nos olhos e o desejo de simplesmente recostar-se no sofá a bebericar o whisky tornou-se incontornável. Foi então que ouviu os degraus rangerem.

Conhecendo cada gemido da velha casa como as próprias dores, não tardou a levantar-se do sofá para ir buscar a revólver ao escritório.

– Quem está aí? – exigiu saber, voz firme e arma em punho. – Estão em propriedade privada, é melhor porem-se no caralho antes que vos enfie um balázio no cu. Fedelhos da merda, eu devia…

Ouviu alguém a correr escada a baixo, só que ninguém desceu para cumprimentar o cano do revólver.

– Mostrem-se! – Pelo canto do olho viu um vulto escapulir-se e ouviu um riso maníaco acompanhado por guizos, mas quando se voltou ninguém estava lá. Apenas os sons nocturnos normais de uma casa velha num bairro semiabandonado.

Baixou o canhão após uns minutos de atalaia e preparava-se para o guardar quando ouviu algo que o fez suar em bica. Algo que não pertencia aquele sítio, aquele tempo. Sons que após quarenta anos ainda o faziam tremer.

“Não pode ser” pensou aterrorizado enquanto à sua volta a selva explodia em actividades. À distância ouviam-se as hélices de um helicóptero. Perto o suficiente para dar esperança, mas longe demais para… Um clarão cegou-o. Um estoiro seco fá-lo agachar-se atrás do sofá. Ouviu algo deslizar lenta e furtivamente pela vegetação. Vultos aproximavam-se. Sussurravam num idioma que reconheceu mesmo sem entender uma única palavra. Charlie. Nunca estavam longe. Moviam-se pela floresta como fantasmas.

Reconheceu o inconfundível som de uma AK-47 a ser destravada. Aterrorizado cedeu aos instintos de soldado, agachando-se e procurar uma posição onde pudesse tratar do inimigo antes que ele o fizesse. Não tardou em vê-los, contudo o que contemplou não foram sujos rostos vietnamitas, antes carracas pálidas, exageradamente pintada de vermelho, com estrelas douradas. Palhaços. Palhaços de AK-47 em punho, ornados com sorrisos disformemente rasgados. Um único guizo ouviu-se antes da chuva de balas, por entre os risos maníacos, que feriam os tímpanos como alfinetes.

Disparou, fugiu a agachou-se, tudo ao mesmo tempo, sem saber para onde se virar. As hélices do helicóptero tornam-se ensurdecedoras, apenas sufocadas pelos gritos encharcados em lágrimas de Doc, desesperado por escapar ao guizos e risos dos vietcongue-palhaços, durante o que lhe pareceu uma eternidade. No final, entre o terror e a demência, encontrou apenas uma fuga possível…

A arma saltara-lhe da boca quando a nuca explodira, salpicando a parede de sangue, fragmentos de osso e massa encefálica.

– Feiooo – criticou Bo, deslizando a mão pelo rosto da vítima. Aquele não queria coleccionar.

– Este ainda se passou mais depressa que o drogado e o gordo. Será que o Monociclo está a ficar mais forte, Patrão?

– Talvez Aranha – disse o anão maquilhado com sangue, largando a bengala e saindo do próprio monociclo para contemplar o artefacto. – O monociclo do Vovô é muito especial. Por outro lado, em alguns, o véu entre loucura e sanidade é muito mais fino que noutros.

– Contra o que é que ele estaria a lutar? – ponderou a mulher desproporcional enquanto afagava a barba e passava o dedo pelos buracos de bala nas paredes.

– Patrão, a bófia vem aí – roncou o Rapaz-Porco, cujos ouvidos apurados já detectavam sirenes.

– Que venham. Já temos aquilo que viemos buscar – afirmou satisfeito, montando o ancestral monociclo. – Bom trabalho, minhas aberrações.

– Patrão! Patrão! – gritou Bo, antes que o Rapaz-Porco e Aranha tivessem tempo de agradecer o elogio. – Ele ainda está vivooo!

 – Ora, ora, vejam só, que surpresa agradável. Parece que a insanidade é forte neste aqui. – Rosto deformado pela bala e com o que restava do cérebro a escorrer pelo buraco na nuca, Doc lutava para levantar-se e entender o que se passava. – Bem-vindo, novato. É sempre bom conhecer outra aberração. Como vês a Morte tem alguma dificuldade em arrastar anormais como nós para o Poço. Eu sou o Patrão. Queres pertencer à minha pequena família? Claro que queres! Lá no fundo todos querem juntar-se ao Circo. Estou a ver que gostas do Monociclo. Vamos então. Bo, Aranha e Rapaz-Porco, tragam o nosso novo amigo. Depressa! O espectáculo tem de continuar.

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