– É uma antiguidade. Mas estavas errado, Joe, isto não foi um grande biciclo cortado para fazer um monociclo, antes um mono feito de raiz. Pelo estilo, talvez até um dos primeiros. Pode ser que…

– Yeah, yeah. Fixe. Mas ouves? – perguntou o lojista, esbugalhando os olhos raiados de vermelho para Doc, enquanto roía freneticamente a unha do polegar e suava em bica.

– Ouvir?… Ouvir o quê, Joe? – Espreitou por cima dos óculos em meia-lua, preocupado com o comportamento errático do amigo.

– O guinchar! O chiar da roda! A toda a hora, dia e noite, como a merda de um portão velho. Ich-ich-ich!

– Estou a ver… Sim, realmente quando se roda chia um bocado. O que é bom, a maioria das peças desta idade já estão completamente…

– Não é esse chiar! Não! Não! Ninguém lhe toca e ela começa, do nada. Ich-ich-ich. Só que quando vou ver… nada… silêncio. Apenas silêncio. Viro costas, certo que foi a última vez e então, quanto menos espero, quanto estou certo que acabou… TAU! Ela recomeça. Toda a noite… Mesmo fechada nos fundos. Mesmo em casa, oiço-a. – PUMBA! O negociante espetou a palma contra a parede. – Baratas! As putas estão em todo o lado.

Doc concordava. Só que quando o amigo afastou a mão e a limpou à camisa enrugada, nada havia para limpar…

– Elas também nunca se calam. Dia e noite. Crick-crick. A rastejar. A comer. A foder. Nunca param. Sempre mais e mais, cada vez mais. A cidade nunca está limpa. Nunca!

– Joe… JOE! Estás bem? Tens a certeza?

– Estou bem? Estou bem? Claro que estou bem. Vivo numa pocilga, mas estou bem, bem. Que pensas? Achas que… Hã? Vá, vá, um pouco cansado, talvez. O barulho, não me deixou dormir a noite toda.

Na selva, Doc vira homens assim e bem piores. Os traumas, as drogas… O limiar da loucura à distância de um braço. Foda-se, ele próprio já dançara com o Diabo na eternidade de um segundo, entre o tudo e o nada. Sabia melhor que ninguém que a insanidade podia durar apenas um minuto ou tomar controlo de tudo.

– Joe, não consumiste, pois não?

– Quê? Vai à merda! Lá porque estou cercado de janados pensas que…

– Ei, tem calma. É só uma pergunta. Estou preocupado contigo…

– Não és meu pai, cota. Estou bem, só preciso de descansar. Tem sido uma semana daquelas…

– Claro, claro. Compreendo. Este negócio, neste bairro… Qualquer um estaria em pontas. Se quiseres podemos deixar isto com o monociclo para…

– NÃO! Vamos tratar disto já. Que dizes? 200?

O restaurador quase mordeu a língua de choque. Se já estava preocupado com Joe, ainda ficou mais. Ele não podia estar bem. O tipo que conhecia saberia bem o que tinha e nunca pediria menos do dobro.

– Estás a brincar?

– Quê, muito alto? Está bem, 150 e é teu.

– Não, não é isso. Eu… – Doc tinha muitos defeitos, entre os quais ser honesto. Ao contrário de Joe não conseguiria dormir descansado ao “roubar” uma peça daquelas por meia-dúzia de patacas. – Fazemos assim, 300. – Também não era “demasiado” honesto…

– Boa, boa. Levas já a cena, não é? Fixe. Ainda bem. Quanto mais cedo melhor! Essa coisa arrepia-me.

Joe não era capaz de explicá-lo, mas assim que o monociclo rolou para fora da loja sentiu como se lhe tivessem tirado um torno da cabeça. O ar ficou mais leve e a visão mais clara. Por altura que chegara a casa, após um dia miserável, não conseguia perceber porque fora tão paranóico. Doc devia tê-lo julgado louco e com razão.

Baixando as calças e sentando o anafado traseiro na sanita amarelada concluiu que precisava de férias. Estava cansado, era tudo. Dia após dia, sem fins-de-semana ou férias a lidar com todo o tipo de loucos acabava por fazer mossa. Uma única noite de insónias fora o que bastara para o lançar do beiral. Pensando bem, os barulhos podiam não ter passado de uma partida. O que não faltava naquele bairro eram fedelhos sem nada para fazer ou idiotas insatisfeitos com o modo como geria o negócio.

Ouvindo o inconfundível crepitar de uma barata a correr pelos azulejos manteve-se calmo. Percebia que exagerar. Por mais nojentas que fossem, eram também uma constante incontornável numa cidade daquele tamanho. Sempre tivera de lidar com elas e provavelmente sempre teria. Não valia a pena passar-se com isso. Quanto muito, era apenas mais um motivo para tirar umas pequenas férias.

Largava a pesada poia e já se imaginava numa pequena cabana fora da cidade quando o som das minúsculas patas aumentou. Já não batiam no azulejo, antes ecoavam pelas paredes, reverberando na canalização e estuque. A calma de Joe estilhaçou-se em profundo e paralisante terror perante o que lhe soava como uma infestação de proporções bíblicas.

A água da sanita começou a borbulhar, o som de patas ressoou mais grave sobre a porcelana e antes que pudesse levantar-se sentiu algo subir-lhe para as nádegas. Vários “algo”. Dezenas. Centenas. Saltou da sanita, partindo o lavatório em frente e caiu no chão, mas já era tarde mais. As baratas ascendiam da água sanitária, batendo as antenas em euforia, enquanto rastejava pelo corpo peludo e obeso. Sangrando no chão entre os fragmentos do lavatório, rasgou a camisa e sacudiu-se desesperadamente para afastar os insectos. As baratas não só o cobriram como o invadiram. Contorcendo-se freneticamente entraram-lhe pelo ânus, espalhando-se, sondando, ferrando e mastigando. Vomitou quando uma delas lhe correu pela garganta, cuspindo e mordendo para as afastar as demais da boca. O mundo tornou-se numa cornucópia viscosa de nanha verde à medida que cada barata que matava era substituída por duas. O ar vibrou com o ensurdecedor bater das asas. Desespero e fúria transbordaram, purgando todo que pudesse ser confundido com uma personalidade e deixando apenas puro e indomável instinto.

Quando o corpo mutilado, ossos fracturados e carne lacerada pela luta desalmada, foi encontrado na casa de banho completamente destruída, pintada de sangue e carne moída, não fora descoberta uma única antena, carapaça ou pata. Nem sequer uma gota esverdeada que indicasse a presença de um enxame de baratas. Apenas os destroços de uma mente alucinada…

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