O Roul de gabardina deambulava pela câmara observado o achado de Kurn.

– Então, era isto que procurava? – questionou o mercenário.

– Oh, sim. Deu-nos uma ajuda preciosa, Kurn Hin’or – declarou o Roul.

– Se é que posso perguntar, como é que estes destroços aqui vieram parar e que raio de coisa é esta?

– Que eu sabia não lhe pagam para fazer perguntas… – respondeu o Roul num tom arrogante, sorrindo de seguida. – Mas já que insiste, está familiarizado com as lendas da formação do Mar de Cristal?

Kurn ponderou antes de responder. Não gostava da atitude daquele homem nem compreendia o que fazia um grupo de Rouls a trabalhar para a Igreja. A ordem Roul rejeitava os Inai, os deuses da Igreja, o que sempre criara tensões entre as duas instituições. Os líderes religiosos sempre fizeram questão de salientar os caminhos pecaminosos dos Rouls. Apesar de controlar grande parte da sociedade e não aceitar a existência de outros credos, os poderes sobrenaturais dos membros da ordem sempre conseguiram intimidar a Igreja, pelo menos o suficiente para evitar banhos de sangue. Mais uma vez, o instinto de Kurn dizia-lhe que era uma daquelas situações em que quanto menos soubesse melhor. Porém, a sua curiosidade ganhou.

– A história dos pescadores e do meteoro azul. Sim, eu conheço o folclore. O que é que isso tem a ver com este monte de sucata?

– Bem, o monte de sucata, como você lhe chama, não é nada mais do que o meteoro que caiu nas águas do mar, originando o Mar de Cristal.

Kurn lançou um novo olhar para os restos do enorme robot.

– Está a dizer-me que esta coisa criou o Mar de Cristal e que veio do espaço? Impossível! Nessa altura não havia qualquer espécie de tecnologia.

– Então como explica que algo deste tamanho esteja escondido debaixo de um manto de cristal durante séculos? Tal como disse, tanto os humanos como os restantes povos de Kryo não tinham tecnologia, mas o mesmo não se pode dizer dos Inai…

– Os Inai?! Se a Igreja sabe da blasfémia que acabou de dizer, o Supremo Sacerdote manda cortar-lhe a cabeça!

O líder dos Roul soltou uma gargalhada. Parecia achar toda aquela situação divertida, o que deixava Kurn cada vez mais desconfortável.

– É assim tão limitado que ache que os Inai eram deuses? Esses seres que a Igreja diz serem sagrados não são mais do que uma raça alienígena. Habitaram Kryo milhares de anos antes de os humanos sequer existirem, e um dia, sem deixar rasto, desapareceram da face do planeta.

– Deuses ou não, os Inai desapareceram há milénios. Se esta coisa criou o Mar de Cristal e por essa altura…

Kurn interrompeu o discurso. Acabara de se aperceber das implicações da sua descoberta. Os Inai podiam ter desaparecido de Kryo, deixando apenas para trás uma série de vestígios degradados e algumas peças de tecnologia, mas aquele robot era a prova de como ainda existiam num outro recanto do universo. Essa informação não só deitava por terra o poder da Igreja na sociedade actual, como iria alterar o mundo tal como ele o conhecia.

O Roul sorriu ao ver que Kurn compreendera finalmente a natureza daquilo que descobrira. A Igreja era conhecida por eliminar e silenciar todos os que colocavam em causa os seus ensinamentos. Ter conhecimento de uma informação daquelas podia custar a vida a Kurn, e ele sabia-o.

– Parece que o meu trabalho aqui está terminado – declarou o mercenário. – Deduzo que vocês tratem de tudo a partir daqui.

Virou costas e começou a afastar-se do Roul, encaminhando-se para a entrada da câmara, onde GV-53 aguardava. Tinha de sair dali o quanto antes.

– E o seu pagamento? Não quer ser pago pelos seus serviços?

– Resolvo isso com o meu contacto, não se preocupe. Agora quero é sair daqui. Já encontrei o que vocês queriam e tempo é dinheiro. Além disso, este lugar dá-me arrepios.

Dois dos Rouls de capacete colocaram-se em frente a Kurn, bloqueando-lhe a passagem. O mau pressentimento que o mercenário tinha acabou de se provar ser justificado.

– Lamento imenso, mas isso não vai acontecer – declarou o líder Roul, retirando a sua espada de cristal negro do interior da gabardina.

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