Ricky estava deitado de barriga para cima sobre uma pilha de sacos do lixo ensanguentados, corpo nu cravado de facadas e rosto contorcido em agonia. Levara tantas vezes e com tanta força a lâmina ao próprio corpo, espetando e esgravatando, que lacerara a mão e partira dedos. O que procurara com tal furor na própria carne? O que lhe disseram as vozes? As respostas partiram com o último suspiro.

O cadáver fresco fez os gatos vadios mais esfomeados saírem das sombras, na noite quente de Verão. Apenas para a elas regressarem quando três vultos se aproximaram, trazendo consigo o estridente som de guizos.

Um dos recém-chegados, vestido com trajes rotos, sujos e largos, ajoelhou-se na poça de sangue e farejou o cadáver com o grande nariz porcino. Não tardou a soltar um ronco de aprovação, virando o rosto deformado para os companheiros.

– Tens a certeza, Rapaz-Porco? – quis saber uma mulher muito magra, com mais de dois metros de altura, membros desproporcionalmente compridos e barba negra capaz de fazer inveja a um patriarca bíblico.

– Sim, Aranha. Roc-roc. Cheira ao Monociclo.

– Puff! Pois está bem, mas não vejo aqui nenhuma roda gigante. Tu? – desafiou, coçando a espessa barba enquanto se sentava no chão, fazendo-o com que os joelhos ficassem acima da cabeça. – Que trabalheira… O que estás a fazer, Bo?

Enquanto o Rapaz-Porco vestia trapos desprovidos de cor e Aranha um fato-macaco justo listrado, que a fazia parecer uma zebra desengonçada, Bo comprimia a obesidade mórbida num colorido traje de palhaço cheio de guizos.

– Tão bonitooo – disse o palhaço sem maquilhagem, fascinado, passando os dedos sapudos pelo rosto flagelado do cadáver. – Meu!

– Bo, não temos tempo! Espera… Porra.

Antes que Aranha pudesse impedi-lo, caiu sobre o corpo do drogado. A boca da aberração tornou-se assustadoramente larga, com grandes e pesados dentes que trituraram carne e ossos, numa enjoativa e peganhenta sinfonia.

– E o porco sou eu? Au! Para que foi isso?

– Vê lá se não queres levar outra. Bo, és sempre a mesma merda. Despacha-te lá com isso. Se o chefe descobre…

– Ah! Ah! Ah! Já é meu! Meu! – gritou, minutos depois, desapertando o fato de palhaço para confirmar que tinha mais um rosto no imenso barril de banha a que chamava tronco. A cara de Ricky fazia agora companhia a dezenas de faces presas em gritos silenciosos, como se quisessem rasgar a pele sebosa que as continha.

– O que pensam que estão a fazer?

O trio sentiu o sangue gelar nas veias, quase não tendo coragem para fitar a calma e controlada voz que os surpreendera, acompanhada por um chilrear metálico. Nas suas costas, onde antes nada mais houvera que um beco sombrio e deserto fustigado pelo vento, estava uma parada de aberrações de circo. Palhaços, anões, trapezistas e animais selvagens, todos eles com as mais diversas deformidades, vestidos com cores berrantes. No centro da horda de aberrações estava um anão de fraque vermelho, usando uma cartola preta e uma bengala, enquanto se equilibrava num monociclo.

– P-Patrão, n-nós…

– Disse-vos para encontrarem o monociclo do Vovô. Porque estão a perder tempo? – exigiu saber, rasgando um largo sorriso no rosto toscamente maquilhado com sangue seco.

– Estamos a seguir uma pista…

Antes que pudessem sequer tentar articular uma desculpa, caíram no chão, contorcendo-se. Vermes começaram a sair do nariz do Rapaz-Porco; Aranha sentiu cada articulação ser torcida e o estômago de Bo ardeu tanto que teve de vomitar quase tudo o que acabara de devorar, num repuxo de carne moída e sangue que empestou o beco

– Levantem-se e continuem a procurar o Monociclo. Não testem a minha insanidade ou ainda terei de fazer algo realmente demente.

Paul Robertson, Doc para os amigos, era um tipo prudente. Acreditava que fora essa prudência, mais do que o sangue frio ou sorte, que lhe salvara a vida na selva durante a Guerra do Vietname. Por isso, se naquele momento ia ter com Joe com 900 dólares no bolso, mais que disposto a gastar cada cêntimo para trazer o monociclo, era porque já confirmara todos os ângulos possíveis e sabia que podia lucrar à grande com o negócio.

Viera preparado para verificar a autenticidades do produto e para lidar com um mestre na arte de regatear, contudo, não para aquilo que encontrara…

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