– 300

– Nã, esquece. 50.

– 50? Estás a brincar, meu? Olha para o tamanho disto. Vale pelo menos 250!

– E então? É a merda de um monociclo! Sabes quantas vezes tive clientes à procura de monociclos? Zero! Isto é uma loja de penhores em Chicago, não uma casa de leilões em Londres. Vai ocupar-me imenso espaço durante uma porrada de tempo. Ok, 70. É um bom preço.

– Vá lá, meu. Quando foi a última vez que viste uma coisa destas? – fungou o jovem cadavérico, encostando-se à roda quase do seu tamanho, enquanto evitava coçar-se. Suava como um cavalo e os olhos esbugalhados moviam-se nervosamente, sondando cada centímetro da loja. – A cena é uma… Como é que se chama?… Uma…ant… uma antiguidade. É isso, uma antiguidade.

– Só porque é velho não quer dizer que valha peva. Foda-se, esta camisa tem vinte anos, achas que vale mais por isso? Os gajos que coleccionam estas coisas gostam delas bonitinhas, a brilhar. Isto parece que foi pedalada até o Inferno por um elefante. Só a ferrugem é mais velha que o meu avô.

– Estás a foder-me, pá! I-Isto… isto é… uma… Bah! Porra! PORRA! – Frustrado começou a bater na cabeça com os próprios punhos.

– Ei! EI! Põe-te manso, meu janado de merda. 80 é o máximo que vou dar. Se não gostas, podes rolar essa sucata para outra loja. Entendes? 80 dólares em dinheiro. Notas na tua mão, dinheiro vivo, e nem vou perguntar onde a arranjaste.

Ricky tinha medo de Joe. Quem não teria? O tipo parecia ter engolido um lutador de sumo e todos sabiam que escondia uma caçadeira atrás do balcão. No final, a custo, acalmou, escondeu ainda mais a cara dentro do capuz da camisola, sussurrou um “sim” e bazou com o graveto no bolso.

Joe não tinha ilusões sobre o que aconteceria aquele dinheiro. A única dúvida era: nariz ou veia? Não queria saber. Geria uma loja de penhores, não uma instituição de caridade. Estava ali para fazer dinheiro e se estivesse certo sobre aquela velharia, acabara de sacar uma pechincha.

– Estou-te a dizer, Doc. Tem selim e guiador. Não sei se é mesmo um monociclo ou uma daquelas bicicletas… Como é que se chamam? Aquelas com a roda grande à frente e a pequena a trás? Grande biciclo, é isso. É como te digo, não sei se é um monociclo de origem ou um feito de um grande biciclo. Seja como for é antigo… Sim, sim. Claro. Daqui a nada mando as fotos. Achas que podes vir vê-la? Amanhã? Fixe. Sim. Ah! Ah! Não sei, não sei. Quer dizer, já vi réplicas que a custarem 700, isto é original. Não, não, mas ainda tem a maioria das varetas… Não sei. Tu é que vais ver. E, Doc… Doc! Ouve. Trás dinheiro. Ah! Ah! Pois, pois. Veremos.

Joe sorria. Fizera um bom negócio e no dia seguinte ainda faria um melhor. Doc podia esconder muito bem o jogo, mas conhecia-o há tempo suficiente para saber que não deixaria passar um negócio daqueles. Quando se tratava de velharias, nunca o deixara ficar mal. Verdade, aquele velho monociclo, por si só, como estava, podia render muito mais que os 500 ou 800 dólares que iria pedir a Doc. Se arranjasse o comprador certo, claro. Talvez ainda mais se o mandasse restaurar. Só que preferia lucrar quanto antes do que ter dinheiro empatado numa incógnita que podia levar dez anos a vender. O restaurador que corresse o risco de investir naquela sucata, se achasse que valeria a pena, uma vez que tinha os conhecimentos e a clientela para dela tirar o melhor preço.

A verdade é que aquela coisa arrepiava-o. Era capaz de jurar que volta e meia ouvia-a chiar, só que quando espreitava… silêncio. Absoluto silêncio.

“Bah, velharias! Como a merda deste prédio. Sempre a gemer e guinchar” pensou, enquanto espalmava uma barata que quase lhe subira pelo braço. “Porra! Nunca mais tenho dinheiro para sair deste pardieiro. Este buraco ainda vai dar comigo em doido!”

historic uni 2 copy - Cópia

Anúncios