Voltou a acender a lanterna. Uma mão apoiava-se na parede, enquanto descia, degrau a degrau, atenta para não cair. Ao alcançar a base das escadas, lançou um novo olhar em redor. Encontrar-se ali sozinha fomentava no peito um aperto que parecia querer roubar-lhe a respiração.

Ficou parada perto da porta, onde havia um pouco mais de luz, remoendo-se de curiosidade, mas hesitando. Contudo, acabou por ganhar coragem e dar um passo em direcção à escuridão.

Deixou a luz varrer primeiro o chão, garantindo que não tropeçaria em nada. Depois atentou aos montes de tralha, aproximando-se de um para examinar o conteúdo. Havia roupas, pequenas peças de mobília, papéis… Tocou-lhe com a ponta do pé. Como se estivessem à espera daquela oportunidade, meia dúzia de coisas desequilibraram-se e rebolaram, rompendo o silêncio. Encolheu-se, esperando que Sophia não se apercebesse que andava a bisbilhotar.

Porque é que alguém se daria ao trabalho de guardar coisas que estariam melhor no contentor do lixo? Levou a mão a um pedaço de tecido e puxou-o, fazendo com que o monte se desfizesse ainda mais. Um objecto que estivera embrulhado nele rebolou até junto dos seus pés. Apontou o telemóvel à superfície polida que à primeira vista lhe pareceu uma bola, até a luz se focar nos globos oculares vazios.

Soltou um guincho abafado e pulou para trás, deixando o tecido cair no chão e ocultar novamente o crânio. Passou a mão livre pelo rosto. Estava a ser parva. Havia muita gente que gostava de ter em casa objectos mais macabros que nem sequer eram verdadeiros.

Respirou fundo, antes de ser acometida por um ataque de tosse quando o pó e o cheiro a mofo lhe encheram as vias respiratórias.

– Não devias ir visitar essa Isabella – recomendou uma voz grave, perto do seu ouvido, que lhe arrancou outro guincho de terror. O telemóvel quase lhe saltou da mão.

A sua cabeça rodou de forma algo mecanizada, até conseguir olhar por cima do ombro, só para dar de caras com o rosto fantasmagórico de Robert. No entanto, a atenção do fantasma focava-se no pedaço de tecido e no volume que se escondia sob ele.

– Eu tenho de ir – murmurou, quando conseguiu articular as palavras. – Não conseguirei viver em paz se não o fizer.

Ele acocorou-se e afastou o tecido, ficando a encarar o crânio descarnado.

– Estava escondido neste monte de porcaria – falou consigo mesmo. Olhou em volta, muito para além do curto raio de visão de Raphaela, e depois mirou o tecto. Os lábios mexiam-se imperceptivelmente, até as pálpebras se arregalarem. – São doze.

– São doze o quê? – perguntou, sem compreender.

– Há doze montes iguais a este, neste e no andar de cima, localizados numa posição sobreposta, cinco deles formando um círculo em redor de um sexto monte – disse, tirando os óculos, como se o ajudasse a ver melhor. – Há um exactamente por cima deste, tal como outro crânio.

Apontou para o tecto.

– Acha que pode ser o elo que liga cada um de vós… – Não concluiu a questão, já que a resposta parecia por demais óbvia.

Robert abanou a cabeça, incrédulo. Há três anos que vivia prisioneiro de um mundo que já não lhe pertencia. Durante todo esse tempo tentara perceber o porquê e, de um momento para o outro, parecia tão óbvio. Estava ali a razão da prisão de cada um deles, todos os crânios que tinham provindo da profanação das suas sepulturas. Contudo, qual era o fim de toda aquela… bruxaria? Não havia melhor palavra para o descrever.

– Não vás a casa dessa Isabella – insistiu. – Este prédio é dela, todos nós a conhecemos antes de morrermos. Tu e a Sophia deviam afastar-se daqui, dela. Principalmente tu. Quero muito estar enganado, pensar que tudo isto é produto da imaginação de alguém que lê demasiados livros. Mas estou morto, sou um fantasma, e já ouvi falar muito da simbologia do número treze.

Raphaela abanou a cabeça, incapaz de envolver Isabella em algo tão rebuscado e sórdido.

– Até à próxima, Robert – disse, apressando-se para a porta e não voltando a olhar para trás.

O fantasma seguiu-a com o olhar. Esperava que da “próxima” Rapahela não fosse também uma alma penada.

O Sol escondia-se no horizonte quando Raphaela se deteve à soleira da porta. Reconheceu o tapete em forma de sapo, os vasos de ervas aromáticas pendurados à janela, o fio que substituía a campainha. Puxou-o, ouvindo o sino tilintar.

Isabella ainda se demorou, mas ela conteve-se e não voltou a tocar. A paciência era uma virtude. Por fim, viu algum movimento através da cortina rendada e o trinco da porta abriu-se. Ficou a contemplar a figura à entrada, de olhos demasiado abertos, e só reagiu três segundos depois de ela lhe ter dirigido a palavra.

– Ah, boa tarde. Sou amiga da Sophia, o meu nome é Raphaela. Sei que aparentemente não me conhece de lado nenhum, mas eu gostava de falar contigo… consigo – corrigiu-se, algo embaraçada.

Isabella brindou-a com um sorriso amável e pareceu nem estranhar o comportamento peculiar, como se já o adivinhasse.

– Espero que a Sophia esteja bem – disse, dando-lhe passagem. – Acabei mesmo agora de fazer um chá de baunilha e caramelo, seria óptimo partilhá-lo.

Ao entrar, Raphaela lançou um olhar à casa bem cuidada. Uma parte de si esperara que Isabella a reconhecesse, mal lhe pusesse a vista em cima. Porém enganara-se.

– Por aqui – indicou, levando-a até uma pequena sala de tons aconchegantes e mobília antiquada. Indicou-lhe a mesa coberta por uma toalha de padrão floral. – Vou buscar o chá à cozinha. Sinta-se à vontade.

Agradeceu e sentou-se mais direita do que devia, enquanto os olhos saltavam pelas poucas fotografias da sala. A maioria delas mostrava um bonito homem loiro, de sorriso contagiante. No entanto, entre elas, uma das molduras encontrava-se vazia. Apertou ambas as mãos no colo, esmagando o monstro das bolachas entre elas.

Isabella voltou pouco depois, com um tabuleiro onde um bule fumegante espalhava no ar um perfume agradável. Duas chávenas já cheias ajudavam à festa.

– Aqui está – disse, pondo uma chávena à frente de Raphaela, antes de se sentar e tomar a sua com ambas as mãos. – Pode servir-se do açúcar à vontade. Mas diga-me, o que desejava falar comigo?

Raphaela deu um longo golo no chá, depois de mexer o açúcar, ganhando coragem para a encarar.

– É um assunto sensível – hesitou.

Isabella ergueu as sobrancelhas.

– Não me diga que ouviu falar dos meus dotes como cartomante e quer que lhe lance as cartas?

– Cartas? Não, não. É mais sobre isto.

Tirou da mala a fotografia e, depois de olhar dois segundos para ela, mostrou-lha. Isabella franziu as sobrancelhas e um véu de cautela tomou-lhe a expressão.

– Como é que esse retrato lhe foi ter às mãos?

Raphaela engoliu em seco e o seu estômago revolveu-se de nervosismo. Deu outro golo no chá, antes de lhe responder.

– Não te lembras mesmo de mim, pois não?

Isabella abanou a cabeça, desconfiada.

– Sou eu, o Raphael – disse, abrindo um pouco mais os olhos, como se ela pudesse ver através deles. – Olha bem para mim, Isabella. Lembra-te dos anos que estivemos juntos. Eu voltei para te pedir perdão. Nunca deixei de te amar, mas sabia que não ias compreender esta mudança…

Debruçou-se sobre a mesa, levado pelo impulso das palavras.

Isabella piscou os olhos por um momento, aparvoada com a tirada inesperada. E, no segundo seguinte, reconheceu-o.

– Não… – sussurrou, baixando o olhar para o chá. – NÃO, MERDA!

Deu um estalo na chávena de Raphaela, ou Raphael, atirando-a mesa fora. A visita recolheu-se contra o espaldar da cadeira, imaginando que Isabella lhe queria bater.

– Vomita o chá, vomita tudo! – ordenou, levantando-se de rompante.

Raphaela olhou um momento para o bule e lembrou-se do que Robert lhe dissera: que uma das últimas coisas de que se lembrava era de ter tomado chá com Isabella.

O estômago voltou a revolver-se, arrancando-lhe um gemido de dor.

– Veneno – arquejou, dobrando-se sobre si mesmo. – Isabella…

– Não, por favor, deita isso cá para fora! – Agarrou-a pelas costas e pressionou-lhe o ventre, tentando obrigá-la a regurgitar. Contudo o veneno tinha efeito imediato, e a plena consciência disso esmagava-a.

Raphaela levou ambas as mãos ao pescoço, quando sentiu a passagem de ar a constringir-se. Ofegou e abriu muito os olhos, como se estes lhe quisessem saltar das órbitas. As lágrimas escorregaram-lhe pelos cantos dos olhos.

– Isa…bella… – sussurrou, uma última vez, antes de o corpo ser sacudido por várias convulsões, que puxaram a toalha de cima da mesa e derramaram o resto do chá.

Ao fim de meio minuto, o corpo relaxou. Desesperada, Isabella ainda lhe procurou a pulsação, porém não havia o mais pequeno sinal de batimento cardíaco, nenhuma elevação do peito. Nada.

Levou ambas as mãos à boca e recuou, incapaz de afastar os olhos inundados de lágrimas da rapariga cuja cabeça repousava agora na mesa. Fora cega, tão cega perante as evidências. A sua fixação no objectivo final deturpara-lhe a Visão tão óbvia. Em breve ele chegaria pelas mãos de outrem, e chegara, disfarçado. Mas os traços eram dele, o olhar era o dele, o sorriso era o dele, até o próprio nervosismo!

Soltou um soluço sufocado. Ele devia ser a décima terceira morte, a décima terceira alma a sacrificar para invocar um Vivo. E agora, ia invocar o quê?

Mordeu o lábio inferior e correu para a cozinha. Abriu as janelas de rompante e escancarou a porta da dispensa, arrancando guinchos e gemidos de medo aos animais ali escondidos. Depois de olhar um segundo para todos eles, abriu as gaiolas, de modo a que se esgueirassem e fugissem para a liberdade. Não mais roubaria a vida de inocentes.

Quando o último desapareceu de vista, deixou-se cair à mesa suja, onde estivera todo o dia a fitar a fotografia que ainda ali estava. Pegou-lhe com as mãos trémulas.

– Perdoa-me – murmurou. – Perdoa-me por tudo o que fiz. Só queria ter-te de volta.

Na fotografia, Raphael continuava a sorrir-lhe, aquela felicidade que agora só os retratos preservavam. O Destino era um filho da mãe irónico, e o que parecia ser era-o, por não o ser… ou porque ela não o quisera ver.

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