O inverno ainda há pouco começou e a neve cai, dia e noite sem parar. Quando eu era pequena, a minha aia costumava contar-me histórias de princesas como eu que viviam em castelos e de príncipes que lutavam contra dragões e demónios para as salvarem e levarem-nas para os seus castelos longínquos. Os príncipes cairiam aos pés das princesas de cabelos de oiro, prometer-lhe-iam amor eterno e o casal viveria feliz para sempre. Puxava-lhe as mangas antes dela se levantar da minha cama e punha-me em bicos de pés para lhe dar um beijo quando ia dormir. Se um príncipe consegue passar por uma floresta de espinhos, também poderá passar pela neve? Ela sorria, sem qualquer malícia e beijava-me as têmporas. “Minha princesa”, dizia, “os vossos cabelos brancos como a neve e os seus olhos azuis são tudo o que um príncipe precisa para se aventurar em tal tempestade.” Mas estava errada… Nenhum príncipe se aventurou pela tempestade. Nenhum príncipe ousou passar pelos barcos encalhados para salvar uma princesa amaldiçoada e viverem felizes para sempre…

* * *

Kai coloca os pedaços do espelho de forma simétrica. Está neste trabalho há sete anos. Durante sete anos a ajudar a Rainha do gelo a colocar o espelho em ordem para a libertar da maldição. Sete anos sem ver Gerda. Kai afasta esses pensamentos. Tinha quase a certeza que Gerda não teria ficado contra ele quando escolheu permanecer naquele castelo frio para libertar a agora Rainha. Os olhos azuis tristes e abandonados apelavam ao seu coração de criança. Quem deixaria sozinha no meio de tempestades de neve, apenas na companhia das mulheres? Se ele tivesse fugido com a sua melhor amiga, nunca mais teria conseguido regressar. Logo quando ele ia a meio do espelho, Gerda apareceu chorando lágrimas quentes contra seu peito.

“Vem-te embora, Kai! Vem comigo e deixa este lugar…”

Mas ele recusou. Rejeitava abandonar a sua tarefa, agora que só faltava reconstruir a parte de cima do espelho.

Quando ela entrou na sala, ele viu o seu vestido branco misturar-se com os cabelos de neve compridos e soltos. Deambulava pelos corredores, magra… demasiado magra. As colheitas feitas pelos seus súbditos eram insuficientes. Os seus poderes escasseavam a cada mês e Kai apercebeu-se com tristeza que a morte aproximava-se da sua rainha.

* * *

“Atentai para esta moldura de ouro. Todas as futuras rainhas devem ter uma para apreciarem a sua beleza” o pequeno troll disse-me. “Olhai, Vossa Alteza, admirai a vossa beleza, a vossa graciosidade.” Ingénua! “O Rei e a Rainha adorarão quando lhe mostrardes este presente.” Mas eu não segui as suas ordens. Uma princesa nunca recebe ordens, uma princesa dá-las. Quando apenas o meu pai restou e anunciou que iria começar a procurar pretendentes, levei-o ao quarto onde estava o espelho.

“Papá, papá o espelho pode servir para o meu dote?” Ele riu-se ao mesmo tempo que afagava a sua barba.

“É um espelho muito bonito. Completará o teu dote muito bem.” O meu pai aproximou-se do espelho para acariciar a moldura em oiro, quando o troll apareceu e puxou-o para dentro do espelho. A sua gargalhada estridente e maldosa ecoou pelo quarto.

“Ah princesa, parece-me que agora sois Vós a Rainha do gelo! Sentis o vosso coração a gelar? Oiça bem, Majestade, o meu mestre encarregou-vos de uma pequena tarefa para não vos entediares com a coroa durante a eternidade. Escreve “Evigheden” com os pedaços deste mesmo espelho e só depois ele ceder-vos-á o seu coração e o que tanto desejais.”

O meu coração gelou, o meu povo morria e os seus filhos e netos servir-me-iam. A história de que numa ilha coberta de gelo vivia uma Rainha amaldiçoada sem coração, enganada pelo Demónio, que a levou a matar o seu pai para se manter jovem e no trono para sempre espalhou-se pelos anos… Mas eles estavam enganados… ó, o quão enganados eles estavam…

* * *

Kai está deitado na cama cheio de cobertores para o aquecerem. Imagens do corpo esguio e pálido Rainha não lhe saem da cabeça. A sua cara denunciava a solidão dos anos sem ninguém a ajudá-la. Suspirou. O que ia acontecer quando amanhã completasse o último pedaço? Ficaria? Permaneceria ao lado daquela mulher ou mandá-lo-ia embora, apenas grata pelo trabalho?

Já não sois nenhuma criança, Kai… pensa. Sabe que o seu corpo está a pedir-lhe para ir ter com a rainha, para deitar-se a seu lado e cravar-lhe a pele de beijos. Prometeste que não farias nada. Prometestes-lhe que não a tocarias… Não podia deixar uma marca no corpo da rainha. Seria rejeitada. A porta abre-se e a rainha entra com lágrimas nos olhos. Kai apressa-se a sair da cama e aconchega-la nos braços.

“Sonhastes com ele?”

Ela abana a cabeça.

“Sonhei que também ele vos levava para dentro do espelho.”

Kai beija-lhe as têmporas, sente o corpo dela desfalecer-lhe nos braços. Os seus olhos cruzam-se, ambos sabem que não lhe resta muito tempo.

“Amanhã estará tudo terminado. O espelho estará completo.” Kai tentou libertar-se, mas a rainha puxou-o contra si.

“Não me fujas, Kai…” Engoliu em seco.

“Não posso ficar também.”

“Eu sou a Rainha, eu é que sei quem fica e quem vai! Ficareis comigo…”

“Eu não…”

“É uma ordem, Kai. Não vos deixarei partir.” Kai segurou-a contra a porta, encostando a sua frente à dela.

“Brianna, não entendeis, torna-se penoso estar ao vosso lado todos os dias sem vos poder tocar…”

“Pensais que sou uma idiota fraca, que precisou da ajuda de uma criança!” Kai desviou o olhar magoado. Quando a Rainha lhe pediu ajuda, aceitou de bom grado. Passou tantos anos naquele castelo com a promessa que quando o espelho estaria completo regressaria a casa, que aos poucos aquele castelo já se tinha tornado o seu lar.

“Se ficar, é porque quero permanecer ao vosso lado.” Os seus lábios desceram em direcção aos dela. Sentia o frio que vinha de dentro, mas nem isso o demoveu de voltar a insistir, abrindo-lhe a boca com a língua. A rainha pegou-lhe na mão e levou ao seio. “Não, Brianna, não…” Kai afastou-se.

“Não? Não me quereis é isso?” O olhar denunciava a sua mágoa. Kai abanava cabisbaixo.

“Não posso, Brianna. Se continuarmos, sereis rejeitada por outros homens quando…” A rainha riu-se, tentando abafar a gargalhada com a mão.

“É isso que vos preocupa? Mas Kai… não há ninguém… Nunca vos contaram a história da Rainha de Gelo que matou o pai? Quem quererá casar com uma mulher tão horrível?” Eu… Kai respondeu dentro da sua cabeça. “Ninguém… Nem eu quero os príncipes que a minha aia me falava. Eles não me ajudaram, abandonaram-me. Independentemente do que acontecer amanhã, quero que sabeis que vos amo. Amo-vos por teres ficado ao meu lado e teres repartido o fado comigo estes anos todos.” Pegou na mão de Kai e conduziu-o para a cama que lhe havia oferecido quando chegou. “Deixai-me mostrar o quanto vos amo.” Brianna tirou a camisa e as calças de Kai, passou os longos dedos pelo cabelo escuro e olhou-se nos olhos verdes do homem que queria ver poupado amanhã. Estava farta de se ver retratada nas histórias como uma mulher fraca e demoníaca. Os seus lábios passeavam pelo peito dele. Nunca lhe haviam ensinado o que fazer quando estivesse com o seu marido, mas isso pouco lhe interessava. Tinha visto as suas aias à socapa com outros homens, sabia bem o que queria fazer. Traçou o peito com pequenos pêlos a nascer com a sua língua e parou quando viu o órgão que as aias costumavam colocar na boca. Primeiro passou a língua em seu redor. Kai arfava. Quando colocou-o dentro da boca pequena, Kai soltou um gemido alto. Devagar… Kai deitou a cabeça na almofada e mordeu o lábio inferior. Os olhos de Brianna sorriram e continuou a sugar. Uma mulher só sabe o seu poder quando tem um homem à mercê e naquele momento, Brianna sentia-o na palma da mão.

* * *

Conseguia sentir a respiração de Kai contra o meu pescoço. As suas mãos seguravam-me na anca e as nossas pernas estavam entrelaçadas. Doía-me o corpo depois da noite anterior. Ele puxou-me contra o seu peito. O quarto tinha um ar e cheiro pesado.

“Kai… Kai” o seu corpo estava tão quente. Ele abriu um olho. “Temos de nos despachar.” Esticou o corpo ainda abraçado a mim e virou-se para o outro lado.

“Já vou, Brianna… Tendes de ser vós a colocar o último pedaço…” Sai da cama e fui em direcção ao quarto. Com os vidros espalhados pelo chão, recuperei a tarefa que tinha abdicado anos atrás. Kai tinha colocado os pedaços quase em ordem.

“Chama o Kai” ordenei a uma aia. Lembrei-me momentos antes que Kai estaria na minha cama, mas quando ela retornou, informou-me que o menino estava já a caminho do quarto.

Ficamos ambos a olhar um para o outro, ele sorriu e beijou-me a mão direita. “Estais pronto?” Deu-me a mão e ajudou-me a colocar o último pedaço. A imagem de um Demónio vermelho com dois cornos apareceu no espelho.

“Brianna, fizeste batota, minha filha de uma mula!” Apertei a mão de Kai.

“Não fiz batota coisa nenhuma!”

“Fizestes sim! Mandaste um servo continuar a tarefa.” Ultrajada desprendi a mão de Kai e aproximei-me do espelho.

“Nunca haveis mencionado que eu não poderia pedir ajuda, por isso não começais a criar novas regras agora. Devolvei meu pai, imediatamente!”

O demónio voltou a gritar, para depois parar e fitar-me sério.

“Não me vou deixar enganar outra vez. Dar-te-ei duas escolhas, Brianna. Devolvo-te o paizinho e dás-me esse homem que está ao teu lado, ou ficarás com esse rapaz, devolver-te-ei o castelo, mas em troca manterei teu pai para mim.”

“Mas… vós haveis prometido…”

“Não vos prometi nada! O meu servo apenas comunicou-vos que quando o espelho estivesse pronto, irieis ter tudo o que quiseres. Chegou a hora, Rainha!” As lágrimas caiam-me pela face. Kai aproximou-se de mim.

“Eu vou…” Sem pensar, coloquei a mão no peito dele e puxei-o para trás. Não, não o poderia perder… Kai representava a vida que eu ainda podia ter, uma vida feliz com ele ao meu lado… mas o meu pai…

“O rapaz parece querer vir para aqui.”

“Cale-se!” Gritei, furiosa contra aquela criatura nojenta. “Ficarei com Kai.”

“ E vosso pai, não vos preocupa se ele estará a sofrer nas minhas mãos?”

“Cale-se, criatura desprezível! A rainha falou e é uma ordem, ficarei com Kai e ele será coroado como rei.” O demónio acenou.

“Muito bem, muito bem… o arrependimento pode ser uma coisa terrível, Brianna… Dizei-me, amais mesmo esse homem?” Acenei.

“Sim, amo-o!”

“Muito bem… Concedo-te então esse desejo, a tempestade de neve será levantada, tereis a vossa vida humana de volta e essa criatura ao vosso lado até a vossa morte. Mas… tenho de vos castigar por teres intrometido outra pessoa!” O espelho desfez-se mais uma vez em mil bocados e Kai segurou-me. Dois pedaços de vidro entraram-me nos olhos.

“Kai! Kai!”

“Estou aqui, meu amor… estou aqui!” Conseguia ouvir a voz dele, sentir-lhe o cheiro.

“Eu sei que estais aqui Kai, mas não vos consigo ver…”

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Imagem retirada daqui: http://www.pjlynchgallery.com/books/snowqueen6.html

Nota da autora:

Angela Carter (1940-1992), Juliet Marillier (1948-) e Vivi Anna são autoras que dedicaram parte da sua obra a reescrever contos de fadas. Angela Carter foi uma das principais autoras da 3º vaga do feminismo ao lado de Ursula Le Guin e no seu livro “The Bloody chamber and other stories” (O quarto dos horrores em português), subverteu vários contos de fadas de Grimm e Perrault para um tom feminista. Vivi Anna, é uma autora com uma voz mais sexual nos seus livros (sendo que podemos considerar a sua obra erótica) e o seu e-book “Blood red” foi das primeiras leituras que me influenciou a mudar o tom de vários contos de fadas para algo mais erótico. Embora, Vivi Anna não seja uma autora feminista, Nancy Madore (não homenageada aqui devido ao tom da história) é uma autora que combina a escrita erótica, feminista com a alteração de contos de fadas. Por último, Juliet Marillier é a autora mais conhecida do público português. Através do livro “Wildwood dancing” (Danças na floresta), Marillier ensinou-me como ler e escrever relações de amor entre personagens que se entranham em nós. Se na obra de Carter, os homens podem ser vilões e na obra de Anna os homens seguem o estereótipo de bonitos e musculados, Marillier traz o equilíbrio perfeito, falando de amor, confiança através dos contos de fadas. Equilibrar a voz de três autoras distintas num só conto é difícil, mas não impossível. Por isso, “Tempestade de gelo numa alma quebrada” é um recontar da história “A rainha de gelo” de Hans Christian Andersen com um pouco do que estas três autoras me ensinaram ao ler as suas histórias.

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