A Melange estende a vida, a Melange expande a consciência, a Melange é vital para as viagens interplanetárias. Quem controlar a Melange, controla o universo.

– Princesa Irulan

Shlaby observou as três pessoas voltadas para o destilador. O silêncio reinava e era abismal.

O irmão deu um passo em frente, desembainhando a sua Cris. Como todos os habitantes do planeta, usava um fato destilador negro e os olhos eram de um azul aquoso.

– Meu pai ensinou-me a montar as Shai-Hulud, ensinou-me a sangrar os invasores Corrino. Lado a lado lutamos, e a meu lado morreu. A vingança virá e esta Cris há-de beber sangue Corrino! – prometeu Kabir, picando-se no dedo indicador antes de guardar a arma.

– Ele foi um guerreiro à altura dos seus antepassados, que a sua água permaneça connosco – acrescentou um guerreiro.

– Ele salvou-me do fogo inimigo e eu não consegui retribuir. Que o Grande Criador me perdoe.

Deu ao pai a honra máxima dos Fremen, na forma de uma lágrima solitária que lhe percorreu a bochecha, caindo sobre a poeira. Não eram necessárias palavras.

Quando a cerimónia terminou, dirigiu-se aos seus aposentos. Despiu os anéis do cabelo e deixou-os sobre a mesinha. Eles eram a sua maior riqueza, representando água, a moeda de troca entre o povo do deserto.

Kabir entrou no quarto sem avisar.

– Não podes fazer isso! – protestou, ao ver os anéis.

– Eu faço o que tenho que fazer!

– Mas é só uma profecia…

– Quantos é que já morreram para que, num futuro remoto, Duna seja um paraíso verdejante?

O irmão olhou-a surpreendido.

– Não é a mesma coisa. Transformar Duna é o nosso objectivo. O que a Bene Gesserit disse são só histórias e só servem os objectivos daquelas bruxas.

– Ela tomou a Água da Vida e não morreu, isso deveria ser suficiente.

– Para mim não é!

– Desperdiças a tua água neste assunto, já tomei a minha decisão. Irei completar o que o meu pai começou!

– Eu vou contigo…

– Isto é o trabalho de uma pessoa, e tu sabe-lo melhor que eu.

Ele virou-lhe costas e, sem responder, saiu. Receando a decisão vacilar, vestiu o fato destilador e caminhou para a saída. Ninguém ousou cruzar o olhar com ela. Sabiam que não regressaria. Apoderou-se de um saco de equipamento e enfrentou o deserto.

A areia estava calma e não se via vivalma naquela imensidão. Não havia vento e o sol estava a pique, espalhando os seus raios letais sobre todo o planeta. Durante quase meia hora caminhou num passo sem padrão, afastando-se do acampamento. Instalou chamariz e afastou-se a uma distância segura.

Não tardou que o batimento repetitivo produzisse os resultados. Um verme da areia aproximava-se a grande velocidade. Shlaby não ousou mexer-se. Por um momento duvidou, não enfrentava semelhante desafio desde a adolescência. O animal era dos grandes, tendo pelo menos meia légua. A boca circular, preenchida com dentes iguais à sua faca, tinha bem mais de trinta pés de diâmetro.

Deixou que o bicho passasse por si antes de estender o gancho e puxar uma das escamas castanhas. Com o outro gancho içou-se, mantendo sempre uma escama levantada, para impedir a serpente de se afundar na areia. Quando chegou ao topo, colocou um gancho de cada lado, reparando que andara às voltas. A partir daí era só puxar as escamas certas para direccionar o anelídeo gigante.

Conduziu-o até estar cansada, deixando o animal voltar às profundezas. De seguida apanhou outro, precisando de mais dois antes de anoitecer.

Ao montar a tenda, reparou que os ventos de Coriolis estavam próximos. A tempestade que nunca abandonava o planeta iria passar por ali. Os ventos passaram e a areia abateu-se sobre a estrutura. Shlaby deixou-se dormir, e quando acordou o tornado ainda não se afastara.

Teve de esperar outro dia antes que a intempérie aclamasse. Quando destrancou a abertura, a areia invadiu o pequeno espaço. Impulsionou-se para a frente e esgravatou, sustendo a respiração, até chegar à superfície.

A tenda estava perdida, assim como o resto de equipamento. Só lhe restava o fato destilador e a Cris. Pôs-se a caminho, guiando-se pelo sol.

Ao chegar a noite, enterrou-se parcialmente na areia para poder suportar o frio. As temperaturas desceram uma centena e meia de graus com o anoitecer. Não conseguiu dormir, o desconforto não a deixava. Interrogou-se quanto dias conseguiria aguentar tal prova.

Antes de o sol nascer, já se tinha levantado e começado a caminhar. Avistou a cidade a meio da tarde. Entrou pelos subúrbios, abandonando o fato destilador debaixo de uma pedra, com a vaga esperança de voltar. Se a previsão estivesse correcta, não faria qualquer diferença.

Percorreu as ruas à procura do palácio do governador, com o vestido creme e a Cris ao peito. Como anoitecia, decidiu entrar pelas traseiras, deduzindo que os criados fariam o mesmo.

Havia um guarda à porta, mas mesmo assim quis tentar a sua sorte. Quando passava por ele, ele disse-lhe algo que não entendeu. Estacou sem saber o que responder e sem esperar que ele desse o alarme, cortou-lhe a garganta num movimento súbito.

Olhou em volta. Ninguém vira o sucedido. Se fugisse agora, provavelmente não seria apanhada, contudo os próximos a tentar levar a cabo a profecia, teriam dificuldades acrescidas. Apertou o cabo da arma e correu para o interior do edifício.

De olhos postos no chão foi percorrendo o edifício. Cada vez que se cruzava com alguém, as suas entranhas contorciam-se. Parecia-lhe que seria apanhada a qualquer momento.

Quando soou o alarme, já se encontra perto da entrada dos aposentos do governador. Aproximou-se dos dois guardas que estavam à porta, sempre de olhos pregados no chão e as mãos no peito. O do lado esquerdo nem soube o que lhe aconteceu, o outro teve um segundo de agonia em que tentou atingio oponente, antes de a sua garganta também ser rasgada.

Shlaby apressou-se para o interior. Encontrou um homem na casa dos quarenta na sala de treino, protegido pelo escudo e empunhando um punhal. Os dois oponentes fitaram-se. Ela soube de imediato que o torso e face cobertos de suor pertenciam ao governador.

Percorreram um quarto de uma circunferência imaginária, avaliando-se mutuamente. Ela sabia que o seu tempo estava a esgotar-se. De súbito, atacou-o com uma estocada com a velocidade certa para atravessar o escudo. O oponente bloqueou-a com o punhal e contra-atacou. Shlaby saltou para trás, evitando o golpe. O adversário prosseguiu o ataque. Ela bloqueou com o braço esquerdo criando um rasgo profundo e com o direito desferiu um golpe mortal no pescoço do governador.

O corpo caiu sem vida, tal como fora descrito na previsão. Apesar do corte profundo, ela sorriu. Cumprira-se outro passo para que a profecia se concretizasse. Haveria um profeta que guiaria o seu povo. Um profeta que tudo veria e tudo saberia.

Ouviu passos no exterior.

– Os Corrino não ficarão com a minha água! – exclamou, abrindo a própria garganta.

 dune-sandworm

Nota do autor:

Frank Herbert foi o criador do género ficção cientifica ecológica, encarnada no seu mais famoso trabalho, a saga Duna. Nascido em 1920 em Tacoma, morreu em 1986 vítima de complicações resultantes da operação contra o cancro pancreático.

A admiração pelo trabalho deste escritor começou muito antes de ler os livros, sob a forma da série televisiva “Duna”. A leitura da saga e dos subsequentes livros escritos pelo filho não me desapontou. Os críticos são unânimes, Frank Herbert é para a ficção cientifica como Tolkein é para a Fantasia. Face às infinitas possibilidades oferecidas por tão rico universo, não podia deixar de aproveitar a oportunidade para homenagear um dos maiores escritores do século XX.

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