– O que…

– Disse para não te assustares, não disse? – Sophia arrastou-a até junto do livro que se folheava sozinho.

– Disseste… mas eu pensei que fossem homens a sério e não…

Até lhe custava dizer a palavra. Enquanto falara, um marcador flutuou até entre as páginas do livro, que logo se fechou.

– Uma alma penada – comentou uma voz masculina incorpórea, que a fez dar um passo atrás. – Felizmente não começou aos gritos.

– Seria menos assustador se a tua voz não estivesse a vir do nada – comentou Sophia, largando a mão da amiga, depois de se certificar de que ela não fugiria, e cruzando os braços.

– Tens razão. É tão grande o hábito de estar nesta forma, que nem me dou conta. Peço perdão.

O ar tremeluziu sobre a cadeira. Fiapos de uma névoa sem origem condensaram-se num vulto que foi ganhando forma, até criarem a figura de um homem de óculos na ponta do nariz aquilino e cabelo pelo meio das costas, atado para não estorvar. Em vida teria com certeza chamado a atenção das mulheres.

Os olhos sem cor do fantasma observavam a nova cara com uma atenção crítica, fazendo a jovem engolir em seco.

– É um prazer, menina Raphaela. Penso eu. Não lhe ofereço um cumprimento mais esmerado porque normalmente ninguém gosta da sensação do nosso toque.

– O prazer é meu, Sr. Robert – garantiu ela, incerta por estar a cumprimentar um fantasma. Queria dizer que havia mais onze como aquele?

Como que invocado pelo seu chamamento, um inesperado toque no cabelo fê-la ressaltar-se.

– Tens um cabelo lindo – comentou outra voz, atrás de si, que a fez rodar ligeiramente a cabeça, só para dar de caras com um rapaz translúcido com não mais de 15 anos. – E a cor é tão clara… Nem se me transformasse em rapariga conseguia tê-lo assim. Como consegues?

As bochechas de Raphaela ganharam um rubor de embaraço.

– Com alguns cuidados – respondeu, engolindo em seco.

– Este é o Ivan – apresentou Sophia. – É o mais novo cá de casa.

O rapaz sorriu-lhe e só depois lhe largou a madeixa de cabelo, um pouco contra a vontade.

– Porque não se sentam? – sugeriu Robert, observando-as através dos óculos. – Posso ir ler para outro sítio, e o Ivan pode ir brincar com o meu cabelo.

– O teu cabelo não tem piada, caixa de óculos! – O rapaz deitou-lhe a língua de fora.

O fantasma mais velho ergueu uma sobrancelha.

– Ainda estás a tempo de receber educação…

Temendo que a discussão se alargasse, Raphaela chamou a atenção de ambos com um tossicar.

– Não me importo que fiquem. No final de contas, é a primeira vez que conheço fantasmas, sem ser o Casper e aqueles dos filmes de terror.

– Então eu vou já buscar o lanche! – anunciou Sophia, saindo a correr.

Seguiram-na com o olhar.

– Uma jovem muito entusiasta e carinhosa – disse Robert, enquanto a visita se acomodava, com a mala e as mãos sobre o colo. – O mundo era um lugar melhor se fossem todos como ela.

Raphaela não tinha certezas de que tanto entusiasmo fosse benéfico para o mundo, mas não o quis contrariar. Sophia podia ser muito boa pessoa, mas faltava-lhe ponderação.

– Já agora, admiro muito a sua coragem em tomar tal decisão – comentou inesperadamente, sem ser muito específico em relação ao assunto em questão. – Não há muitos capazes de se submeter a tal.

Ela piscou os olhos duas vezes, antes de se dar conta do assunto em causa, e voltou a corar, desviando o olhar para o que havia para lá da janela.

– A Sophia contou-vos? – Sentiu que Ivan voltava a pegar numa madeixa de cabelo sua e não conseguiu deixar de sorrir tristemente face ao interesse do rapaz.

– Tendo em conta a nossa condição, ela pensou que não faria mal. Dado o preconceito pelo qual todos passámos em vida, é uma decisão que respeitamos, Raphaela.

A jovem não soube o que responder àquilo, por isso manteve a atenção presa no rio, onde um pequeno barco a remos cruzava as águas, cortando a corrente calma. Duas figuras, uma maior do que a outra, passeavam na margem feita de seixos, com os pés dentro de água.

– Não fui assim tão corajosa – acabou por murmurar. – E é uma das razões pelas quais estou aqui. Deixei um assunto pendente, devido à minha cobardia, e fugi.

Robert abriu a boca para dizer alguma coisa, mas foi interrompido por uma exclamação entusiasta.

– Voltei! – anunciou Sophia, apressando-se para a mesa, com uma bandeja bem recheada. Pelo caminho tropeçou no tapete e quase se estatelou com o nariz no chão. – Eu estou bem, os bolos estão bem!

Atrás dela vinha outro fantasma, trazendo consigo um jarro de leite com chocolate e dois copos, que abanava a cabeça face ao descuido dela.

Raphaela riu-se. A amiga não mudava mesmo.

– Este é o António – apresentou Sophia, pousando os pastéis de nata na mesa e deixando-a logo de água na boca. – É português e o cozinheiro cá de casa!

– Senão passavas fome – notou Raphaela, lançando um sorriso ao fantasma da cozinha. Ele retribuiu e fez-lhe um aceno educado, sem abrir a boca, para se retirar pouco depois. Durante o lanche, ficou a saber que ele emudecera após falecer, talvez devido à causa de morte, da qual nenhum deles se lembrava.

– Já agora… – Raphaela abriu a mala e tirou do seu interior uma fotografia que pousou sobre a mesa. – Conhecem esta mulher? Sei que mora por estes lados. Tenho uns assuntos importantes a tratar com ela.

Ambos se debruçaram sobre a fotografia. Os olhos de Sophia arregalaram-se enquanto contemplava uma jovem de cabelo fulvo, olhar de esmeralda onde brilhava a perspicácia e sorriso traquina.

– É a Isabella, a senhora que me alugou o andar – disse, estupefacta. – Conhece-la?

– Conheci-a, em tempos – murmurou, bebericando o leite.

Robert pegou na fotografia com a sua mão translúcida.

– Eu também a conheci. Era uma visitante assídua da biblioteca onde trabalhei até morrer – comentou, enquanto Ivan tentava espreitar a fotografia. – Na verdade, é estranho. Sinto como se ela tivesse sido uma das últimas coisas que vi. A imagem do dia em que me convidou para tomar um chá é tão nítida…

Passou uma mão pelo rosto, confuso com a recordação inusitada.

– Hey, eu também a conheço – notou Ivan, de pescoço esticado. – Ela foi substituir a minha professora da História, que adoeceu. Acho que foi a única professora que algum dia me compreendeu. Tenho pena de ter morrido entretanto.

– Que coincidências mórbidas – Sophia arrepiou-se. – E ainda por cima moram os dois aqui…

– Um fantasma não escolhe o lugar de assombração – comentou Robert, ainda a examinar a foto. – Está ligado a ele de alguma forma. E eu não acredito em tantas coincidências.

Levantou-se, sem largar a fotografia, e afastou-se, deixando as duas a piscarem os olhos, estupefactas, perante a brusquidão do fantasma.

Raphaela ainda abriu a boca e levantou um dedo, para o lembrar de que a foto era sua, mas ele já desaparecera sem olhar para trás.

– Não te preocupes, ele devolve-a – garantiu Sophia, pegando noutro pastel e dando-lhe uma dentada. – A Isabella mora a uma rua daqui. Queres ir visitá-la hoje?

Raphaela hesitou, mirando as próprias mãos que tremiam de nervosismo.

– Quero. – Tentou dar um tom decidido à voz e cruzou os olhos azuis com os da amiga. – Ao fim da tarde irei lá. Já adiei isto por demasiados anos.

3 Imagem - Morgana du Lac

Imagem – Morgana du Lac
https://www.facebook.com/morgdl

Anúncios