Raphaela mirou a fachada do prédio de três andares que se esfarelava. A tinta desfazia-se junto com a cal; as portadas dos dois primeiros pisos estavam pregadas; e ao telhado, onde já crescia meia dúzia de plantas, fora roubada outra meia dúzia de telhas, como se fosse uma troca por troca.

Ainda assim, quando falara com Sophia ao telefone, esta dissera-lhe que o andar que lhe fora alugado tinha de tudo. E frisara o “de tudo” de uma forma particularmente estranha.

Largou a alça da mala traçada, onde balançava um porta-chaves do monstro das bolachas, e levou o dedo à campainha. Encolheu-se, quando o prédio estremeceu sob o ruído estridente vindo do seu interior. A voz da amiga respondeu-lhe prontamente, como se estivesse colada ao intercomunicador, e pediu-lhe que esperasse.

Olhou através do vidro sujo da porta cuja tinta verde há muito que estalara. Um vulto aproximava-se, contudo, antes de conseguir perceber bem quem era, desvaneceu-se.

– Mas que raio… – Esfregou os olhos. Quando tirou a mão do rosto, já outro vulto estava lá, mais compacto e colorido.

Ouviu um gemido e uma maldição, enquanto a porta era puxada o suficiente para que uma sabrina surgisse entre o espaço aberto, para impedir que se voltasse a fechar. Um inspirar fundo de quem recupera energias chegou até si. E então, com um último esforço, a porta abriu-se por completo, revelando uma Sophia, de bochechas vermelhas pelo esforço. Ainda assim, o sorriso chegava-lhe às orelhas.

Retribuiu o sorriso, antes de a amiga se atirar para cima dela com um abraço apertado. Atrás de si a porta bateu com um estrondo.

– Ainda bem que vieste, Raph! Preparei leite com chocolate, e tentei fazer daqueles bolos portugueses que tu adoras!

– Pastéis de nata? E conseguiste?

Sophia largou a amiga para poder empinar o nariz à vontade.

– Claro que consegui. Se não acreditas, entra e vem ver – desafiou, empurrando a porta com o ombro.

Curiosa, Raphaela espreitou o interior do prédio embebido em sombras. A única luz presente era a que entrava através da porta, e com ela só conseguia ver o chão coberto de pó e detritos.

Seguiu-a, tentando não tecer críticas e, quando a porta se fechou atrás de si, foi como se tivesse cegado momentaneamente. Apoiou a mão numa parede áspera, sentindo finos filamentos a cederem sob o toque. Por instinto, recolheu a mão para junto do corpo e sacudiu-a, não fosse ter ficado com alguma aranha agarrada a si.

– Desculpa a falta de luz. Tentei pôr uma lâmpada, mas acho que o casquilho está estragado. E ainda não tive tempo de limpar os vidros. Quando cheguei o chão estava pior, com tralha espalhada por todo o lado… e cuidado com os degraus!

Não querendo esperar que os olhos se habituassem à semi-escuridão, Raphaela suspirou e tirou o telemóvel do bolso, iluminando o caminho com a lanterna. Atreveu-se a lançar uma mirada em redor. De facto havia mesmo muita tralha amontoada junto às paredes, como se tivesse sido varrida para lá com uma vassoura gigante, só para abrir caminho. Devia ser o lar perfeito para ratos, aranhas e morcegos.

Enquanto observava, uma das sombras pareceu oscilar sozinha.

– Não tens “outros” inquilinos? – arriscou perguntar, seguindo-a até umas escadas íngremes e estreitas, onde outrora houvera um corrimão. Preferiu ignorar aquele oscilar sem dono.

– Na verdade… – Sophia hesitou um pouco, lançando um olhar à amiga e semicerrando os olhos quando esta lhe apontou a lanterna para a ver melhor. – Ai, baixa isso!

– Desculpa – apressou-se a apontar o feixe de luz contra o chão. – O que estavas a dizer?

– Na verdade, não sou a única a viver aqui. Vai parecer-te estranho… mas eu vivo com doze homens.

A amiga piscou os olhos, como se tivesse acabado de ouvir uma piada à qual não achara sequer uma ponta de piada.

– Doze homens?

– S… sim. Um deles até me ajudou a fazer os pastéis. Ele é cozinheiro, ou mais ou menos – tentou explicar, sem grande sucesso. – É melhor seres tu a conhecê-los, de qualquer forma. Mas não te assustes. Eles são todos muito boas pessoas. Ou mais ou menos.

– Não estás mesmo a brincar – constatou, apesar de ainda não conseguir acreditar. – Doze homens em casa? És doida? Ou agora pensas que és a Branca de Neve? Já imaginaste que algum deles pode ser um tarado?

Sophia encolheu-se um pouco, lembrando uma criança face à reprimenda da mãe.

– Não há esse perigo. Eles são todos homossexuais – murmurou, em tom de confidência.

A boca de Raphaela abriu-se e fechou-se, sem que fosse emitido qualquer som, lembrando um peixe fora de água. Se fosse outra pessoa a dizer-lhe aquilo, não acreditaria. Mas Sophia era incapaz de enganar fosse quem fosse, e aceitava as coisas mais estranhas como quem dá um passeio no jardim num dia de Verão. Mas nunca imaginara que chegasse ao extremo de alugar um apartamento onde já viviam doze homens, por mais barata que pudesse ser a renda.

– Tu és mesmo doida.

Quando pisou o primeiro degrau de madeira, arrancou-lhe um gemido dolorido, como se a casa se queixasse com o excesso de movimento.

– Para além disso, a casa cai-vos em cima um dia destes.

Sophia limitou-se a uma risada animada, não ligando propriamente aos avisos da amiga.

Já lá em cima, não havia necessidade de a lanterna continuar ligada. O sol que entrava pelas janelas abertas iluminava a mobília antiquada do pequeno andar, toda ela meticulosamente arrumada e sem sequer um grãozinho de pó. O soalho fora forrado com uma carpete cor de vinho que ia de um lado ao outro do corredor onde as escadas desembocavam. No ar pairava o perfume de bolos acabados de cozinhar.

Raphaela olhou para a escuridão trás de si. Teria passado por algum portal mágico para outra dimensão sem dar conta?

– Diz lá que não tem um ar acolhedor? Tudo graças a eles, que exigiram que o lugar onde viviam tivesse condições. Caso contrário, este andar estaria como os outros dois – disse, levando-a a ver a casa.

– Onde é que eles dormem mesmo? – perguntou, mirando uma cópia de um quadro pintado por John Waterhouse e que fora pendurado na parede que separava a cozinha da sala, o último compartimento que lhe faltava visitar. Todos os outros estavam agradavelmente arrumados, com um gosto de decoração que lembrava mais um chalé antigo na floresta do que uma casa no meio da cidade.

– Oh, eles dormem por aí, onde calha. Por vezes nem dormem, na verdade – ponderou, entrando na sala. – Oh, lá está o Robert!

Raphaela começara a pensar que o que realmente acontecia era que a amiga vivia com uma dúzia de gatos, quando estacou à porta da sala e arregalou os olhos. Junto a uma janela ampla fora posta uma mesinha redonda, óptima para tomar um chá com vista para o rio e para o Sol que começava a descer no horizonte. Um livro jazia aberto sobre a mesa, como que abandonado.

Foi aí que aconteceu novamente: a folha voltou-se sozinha.

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