– Papá, papá, olha! – disse Helen, às cavalitas do pai, apontando o dedinho às pequenas luzes que dançavam entre os ramos nus das árvores, ruborizados pelo pôr-do-sol outonal. – O qu’é?

– Pirilampos, amor – respondeu o meia-raça, parando a caminhada pelo parque. – Insectos pequeninos.

– Giro. – Os límpidos olhos verdes da criança brilhavam de fascínio.

– Sim – concordou Lance, enquanto a mulher se aproximava, caracóis negros acariciados pela brisa. – Vá, Helen, hora de descer.

– “Poquê”? – quis saber, espreitando para baixo, aninhando-se nos longos cabelos negros do pai.

– Porque o papá vai tentar apanhar uns pirilampos para ti – disse, tirando-a dos ombros e pousando-a suavemente, recolocando-lhe um rebelde caracol negro debaixo do capuz cor-de-rosa. – Queres?

– Siiim. Eu ajudo.

– Não, não. Está a ficar frio, não quero que te constipes. Vai com a mamã.

– Mas eu quero…

– Fofa, apanhar pirilampos é um segredo dos papás – interveio Kate, agachando-se ao lado da filha. – Vamos beber um chocolate quente? O papá já vem ter connosco.

– Amo-te, piolha – segredou, antes de lhe dar um beijo na bochecha, fazendo-a soltar uma pequena risadinha, pois a barba fazia cócegas.

– Lance…

– Não te preocupes – tranquilizou, beijando os sensuais lábios rosado da mulher, afagando-lhe o rosto sarapintado de sardas, enquanto a olhava nos profundos e límpidos olhos verdes, brilhantes como folhas húmidas pelo orvalho matinal. – Não demoro.

Temendo ter deixado Kate apreensiva, viu-as afastarem-se de mão dada pelo caminho de gravilha, acenando quando Helen olhou para trás. Mal conseguia acreditar que a filha ainda nem fizera três anos. Era uma criança tão inteligente e carinhosa. Saíra aos Midwaay e ainda bem, pois não queria que herdasse nada do seu lado. Ter minúsculas pepitas amarelas nos olhos verdes já era mais que suficiente.

Mesmo passados tantos anos desde que abandonara o clã por Kate, continuava a sentir-se surpreendido com aquele sentimento que lhe aquecia o peito. Fora educado para combater, não para ser feliz. Por mais que o sentisse, amor continuava a ser uma emoção alienígena.

O céu ruborizava ainda mais à medida que o Sol caía no horizonte, quando finalmente elas desapareceram de vista e Lance pôde deslizar entre as árvores nuas, fazendo as folhas estalar sob as botas, escoltado pelas frenéticas luzes.

– Mostra-te, sei que estás aí – comandou, ao afastar-se cerca de cem metros do caminho, parando com as mãos nos bolsos do sobretudo preto e olhando para a direita.

– Ah! Ah! Tens um bom nariz, lobacho – elogiou uma voz sem corpo, grossa e alegre. A criatura em si era invisível, podendo apenas detectar-se que o som provinha da área em redor da nuvem de pirilampos e que os ramos reagiam ao corpo, não se partindo, antes dobrando-se e desviando-se, apenas para voltarem ao lugar assim que se afastava. Apesar dos mais de três metros de altura, aquele poder permitia ao humanóide delgado andar pela floresta sem deixar rasto.

– Não és o primeiro kapre que encontro, nem sequer o mais discreto. Pirilampos a brilharem de dia, com esta claridade, ainda por cima tão perto do Inverno? – Lance tirou a mão do bolso, deixou um dos insecto esvoaçar para a palma e esmagou-o, reconvertendo-o em fumo. Não eram reais, apenas um efeito secundário do cachimbo do visitante invisível. – Mesmo sem o fedor dás nas vistas como um carvalho num glaciar.

– Ah! É verdade, dou mesmo – admitiu, alegremente, encostando-se a um tronco que imediatamente se moveu para o acomodar. – Se já nos encontraste sabes que não posso simplesmente “mostrar-me”.

– Justo. Então tornarei isto ainda mais fácil – garantiu não se dando ao trabalho de erguer o queixo ou de suavizar a voz. Sabia que os kapres só eram visíveis aos amigos e amantes, não tendo qualquer interesse em tornar-se nenhum. – Desaparece de vez. Não te quero neste parque ou em qualquer outro sítio onde possas cruzar-te com a minha família.

– Calma, lobinho. Não quero mal a ti ou aos teus. Só fiquei curioso. Não é todos os dias que tenho oportunidade de ver um lobisomem híbrido, ainda por cima com uma família humana. Bem, quase, não é? Quer dizer, a tua patroa é humana, mas pelos jeitos tem um pezinho no nosso mundo. Uma Latente?

– Mantém-te longe dela!

– Oh, oh, tranquilo. – Mesmo com os caninos limados, garras cortadas, os cabelos atados num rabo-de-cavalo, a barba bem aparada e incapaz de assumir forma lupina, o híbrido parecia tão intimidante quanto os seus parentes mais selvagens. – Isso são olhos ferozes, irmão Oculto, achas mesmo que os consegues esconder? Relaxa, relaxa. Não o disse por mal. Não estou aqui para prejudicar ninguém. Só fiquei curioso…

– Não me interessa. Arranja entretenimento noutro lado. Boas ou más intenções, não importa, dás muito nas vistas, com esses poderes manhosos. Vais acabar por chamar à atenção dos tipos errados e quando vierem pela tua cabeça não te quero sequer na mesma cidade.

– Isso não é lá muito simpático, lobacho – acusou, indulgentemente, mais desapontado que ofendido. – Afinal, somos Ocultos, camaradas, devíamos ajudar-nos. Sabes, não somos muitos por estas bandas…

– Óptimo, não quero Ocultos perto da minha família.

– Isso é ridículo. Quer dizer, por mais que brinques às casinhas e finjas que podes viver como um humano, és um Oculto. Aliás, tanto quanto parece a tua filha poderá também…

– CALA-TE!

Furioso, disparou na direcção do kapre, pronto a desfazê-lo ao soco, mas foi atirado para trás, voando uns quatro metros, partindo todos os galhos no caminho. Põe-se logo em pé, folhas nos cabelos soltos e roupas rasgadas pelos ramos. A infância de Lance consistira numa sequência imparável de tareias brutais às patas de todos os lobisomens do clã, por isso soube de imediato que aquilo que sentira no peito fora a planta do colossal pé do kapre e que este se desequilibrara ao pontapeá-lo.

– Lobos… Será que têm de resolver tudo com garras e dentes? Ei, calma, não vamos fazer isso – pediu, erguendo-se desajeitadamente, ao ver que o combate ia continuar. – A sério, não sou lá grande lutador.

O meia-raça concordava. Apesar da extraordinária força proporcionada pelo tamanho, o tipo não sabia lutar. Ele, por outro lado, fora criado numa das sociedades mais violentas do planeta.

Usando os pirilampos e as alterações que o massivo corpo invisível provocava à vegetação para detectar o inimigo, atirou-lhe uma pedra. O projéctil foi bloqueado e as duas investidas seguintes não encontraram qualquer alvo, mas à medida que olfacto e audição se habituavam aos movimentos do demónio-das-árvores começou a ter sucesso. Por seu lado, o adversário parecia menos interessado em contra atacar e mais em esquivar e apelar à calma. A certa altura, Lance agarrou numa pedra e esmagou-a de encontro ao kapre, acertando-lhe no joelho, fazendo-o soltar um guincho de dor. Apercebendo-se que ele se agachara, tentou esmurrá-lo na cara, fazendo pontaria à nuvem de pirilampos que nascia do cachimbo invisível, só que foi agarrado e cravado ao chão.

– Pára com isto, não precisamos de… Ai! – Lance começou a torcer-lhe os dedos, fazendo-o saltar para trás e escapulir-se ao primeiro sinal de dor.

O meia-raça não lhe deu um segundo de descanso, forçando-o a recuar com ataques ferozes e quando ele menos esperava, colocando o pé numa árvore, saltou e lançou-lhe outro murro ao rosto. Desta feita não houve defesa possível, acertando exactamente onde calculava que a cara do inimigo estaria em relação aos pirilampos. Infelizmente, naquele momento o cachimbo não estava na boca do adversário, antes numa das mãos. Foi novamente agarrado, arremessado para o chão e antes que pudesse tentar escapar, o kapre usou os poderes de botanocinesia para manipular as árvores, restringindo-o com sólidas raízes e ramos. A força de Lance era extraordinária, mas nem mesmo ele conseguiu mais que fazer gemer as amarras vivas.

– Tem calma. Já te disse que ninguém te quer fazer mal…

– Longe delas! Nem te atrevas a falar de…

– Lobinho, paz. Peço desculpa – cedeu, apercebendo-se que era tabu falar na hipótese da criança vir a tornar-se mais que uma humana normal. – Paras de estrebuchar? Já te liberto, é só…

– O que queres?

– Falar, só isso. Falar. Sabes, aquilo que os Ocultos civilizados fazem em vez de tentarem rasgar gargantas? Para alguém tão ocupado a tentar esquecer o que é e fingir-se apenas um humano como os outros, neste momento, não estás a fazer grande serviço. O lobo está mais perto da superfície do que queres admitir.

– Bah! – cuspiu, parando de rosnar, admitindo que ele tinha razão. Na verdade, envergonhava-o ter deixado cair a máscara tão depressa, após tantos meses a reprimir o lado lupino. – Ok. Mas continuo a querer que…

– Eu entendi, não te rales, partirei – garantiu, soltando-o como um gesto de boa-fé. – Vês? Paz.

– Cospe o que tens a dizer! – exigiu, pondo-se de pé e esfregando os braços.

– Não és lá muito social, pois não? Tudo bem, tudo bem, já entendi. Vou directo ao assunto, não precisas de fazer essa cara. Não sei quem és ou de onde vens, mas sei o que és. Alguém que virou as costas ao que conhecia em busca de felicidade. Lobisomens vivem em clãs, não sozinhos e, de certeza, não com famílias humanas. Só isso faz-te especial. Um conselho: não caias nos erros de acreditar na mentira que criaste. Por melhor que seja a fachada, és um Oculto, não um humano. Não podemos escapar a isso.

– Não importa. Dar-lhes-ei a vida que elas merecem – garantiu, irredutível, não hesitando em expor os sentimentos mais íntimos para fazer frente à mera sugestão que não seria capaz de tratar de Kate e Helen, os únicos raios de Sol na sua miserável vida, imersa em dor e violência. – Se isso significa ser cada vez mais homem e menos lobo, tanto melhor. Não preciso de mais nada.

– Lobacho, olha para o nosso encontro e pergunta-te, achas mesmo que isso é o melhor para a tua família?

As palavras suaves do demónio-das-árvores tinham um peso inesperado. Não estava tão ofuscado pela felicidade que não detectasse o quanto a vida familiar o amolecera. O Lance de há cinco anos teria desfeito aquele adversário desajeitado e hesitante sem dificuldades. Tudo o que fazia, limar os caninos, aparar as garras, esconder os olhos lupinos, em suma, fingir-se um tipo como os outros, era para proteger a sua pequena família. Só que, de que é que isso adiantaria se quando acontecesse o pior não fosse forte o suficiente?

– Porquê? – quis saber, sentindo-o afastar-se. Não estava habituado a generosidade e apesar de não sentir qualquer ameaça da parte do kapre, não conseguia evitar desconfiar.

– Porque em tempos também deixei tudo para trás por alguém. Foi assim que vim parar a este país.

– O que aconteceu? – deu por si a perguntar.

– Fomos felizes, muito felizes na verdade… Mas a minha espécie vive muitos séculos e ele era apenas um humano comum.

– “Ele”? És fêmea?

– Não. O que foi, tens problemas com isso, lobacho?

– Não, não. Só não estava à espera. Desculpa – pediu, praticamente sentindo o tom de malícia divertida na grossa voz do kapre perante a sua atrapalhação.

– Ora, ora, um lobisomem embaraçado, acho que acabaste de tornar-te ainda mais raro. Ah! Ah! És um tipo interessante, lobinho. Se algum dia quiseres encontrar-me, vai para oeste até veres uma boa floresta. Devo andar por lá. Cuida-te.

Não demorou muito até os ramos pararem de apartar-se, garantindo que o estranho encontro acabara. Intrigado, Lance virou as costas, de regresso ao caminho de gravilha, à medida que anoitecia. Um tipo esquisito, não fosse ele um kapre

“Ele está errado” pensou, abandonando as árvores. “Garras e dentes podem defendê-las, mas é a máscara de humano normal que as mantém escondidas do perigo, protegidas do mundo. Elas merecem uma vida pacífica, longe da mentecapta violência entre Ocultos e Obliteradores e garantirei que a terão, nem que precise de abdicar de tudo o que sou. Mais fraco ou não, protegê-las-ei.”

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