A colina parecia muito mais íngreme do que se lembrava. Verdade fosse dita, nas memórias da adolescência tudo parecia mais fácil.

                Joaquim viu-se forçado a parar a marcha solitária, apoiando-se na bengala enquanto recuperava o fôlego e continha um ataque de tosse, provando sangue na expectoração. As pernas rogavam-lhe que sentasse, mas não quis arriscar a tentá-lo antes de chegar ao topo. A dor de cabeça voltou, mais forte do que nunca, forçando-o a fechar os olhos.

                Existiam videiras em algumas das outras colinas, mas naquela nada crescia além de rasteiro mato bravio e, no topo, uma única árvore alta, forte e despida de folhas. Olhando para ela, tronco altivo, como se quisesse rasgar as nuvens que enegreciam o céu, enquanto os ramos nus se curvavam envergonhados, uma figura sombria e triste, dir-se-ia que parecia moribunda. Joaquim não ficou preocupado. Ela sempre tivera aquele aspecto e continuava tão viva como no tempo dos seus antepassados. Quando alcançou o cume, com a camisa de algodão encharcada em suor, entristeceu-o mais ver que era a primeira pessoa a vir ali em anos. Já nem havia vestígios apodrecidos das oferendas há muito esquecidas.

                Não querendo nem imaginar como seria voltar a levantar-se, sentou-se à sombra da árvore. A paisagem compensava o sacrifício, continuando tão bela como na sua juventude. Ao longe o Douro serpenteava por entre colinas listradas por videiras, agitadas por uma brisa suave.

                Não tardou a deixar-se envolver pela calma e leveza de espírito que o sítio despertava. Amava aquele lugar. Não conseguia imaginar como pudera viver sem ele durante tanto tempo. Pouco depois, ela mostrou-se.

                “Bem-vindo de volta, Quim” disse uma voz doce e maternal, directamente na sua mente. “Sentia a tua falta. Quantos anos?”

                – Trinta, Mãe. Parti aos quinze. – A ninfa arbórea, metade inferior do corpo ainda enfiada no tronco da árvore, não lhe tocava, mas as suas palavras aconchegavam-no. Não era bela, o rosto quadrado, os lábios secos e os olhos castanhos não eram feitos para seduzir, e apesar da firmeza dos pequenos seios, nenhum homem quereria perder-se na nodosa e enrugada pele castanha-escura. Não obstante, Joaquim olhava-a com uma expressão quase apaixonada, satisfeito com a rara oportunidade de ver a divindade. – Lamento.

                “O que são trinta anos, para quem já viveu milhares, meu filho? Partiste, mas estive sempre contigo.” Por respeito, o mortal meteu a mão na camisa e revelou o rosário que tinha pendurado ao pescoço. “Reconheço a cruz que te dei, talhada do meu tronco.”

                Disfarçar o talismã pagão de símbolo cristão era um truque velho, do tempo em que os crentes tinham de esconder a verdadeira fé, tanto para sua segurança como para a da divindade menor que cultuavam. Agora até os inimigos que podiam reconhecer os sinais e ameaçar a dríade eram poucos.

                “Quanto tempo te resta?”

                – Consegue ler-me a mente, Senhora? – Sabia bem que não, porém, era uma maneira tão boa como outra qualquer de disfarçar o embaraço perante o reencontro. A avó ensinara-o que as palavras da Mãe da Colina entravam nas mentes dos mortais, mas deles nada podia tirar, por isso é que tinham de rezar bem alto se queriam que ela os ouvisse.

                “Reconheço um doente quando o vejo. Passaram muitos por aqui ao longo dos séculos.” O caso de Joaquim nem requeria olhos experientes. A rouquidão, os persistentes ataques de tosse com sangue na expectoração, a magreza enferma e a fraqueza debilitante que o faziam parecer ter mais vinte anos, deixavam pouca margem para dúvidas. “Lamento imenso.”

                – Também eu, Grande Mãe – afirmou com um sorriso triste, voltando a fixar os olhos na paisagem, enquanto ao seu lado a dríade se erguia, completamente fora da árvore, em toda a extensão dos quase dois metros de altura, longos cabelos castanhos, desgrenhados e cobertos de ramos a bailar ao vento. – Cancro. O bicho bravo. Combati-o durante dois anos, mas já não vale a pena. O sacana espalhou-se. Mesmo com tratamento os médicos não me dão grandes hipóteses. Dizem-me para contar os dias, não os meses.

                “Vejo que a luta tem sido longa e dolorosa, meu filho. A tua coragem honra-me.” O mortal mantém-se sentado, olhos na paisagem, aceitando o elogio com uma pequena vénia emocionada e um sorriso. “Não tem de acabar aqui.”

                – Não passarei os meus últimos dias ligado a máquinas.

                “Existem outros caminhos…”

                Silêncio caiu entre eles. Nesse momento a ninfa arbórea desejou de facto conseguir ler os pensamentos ou, pelo menos, sentimentos do adorador.

                – A avó educou-me nos caminhos da fé – respondeu, recordando a falecida anciã, que o criara com carinho e sabedoria. – Corrija-me se estiver errado, mas o preço da cura seria a vida de outra pessoa? Talvez até duas, certo?

                “Ensinou-te bem, de facto. É triste, mas tudo tem um custo, meu filho. Nem mesmo eu posso fazer milagres a partir de nada. A doença criou raízes longas e fortes.”

                – Não trocarei a minha vida pela de outra pessoa – garantiu, recusando-se a tomar o caminho mais fácil e mesquinho. A avó não criara um fraco. Não a envergonharia. – Lamento, Senhora, receio que perderá um fiel.

                “Então, porque vieste até mim?”

                – Parece-me um bom sítio para passar os meus últimos dias – confessou, respirando fundo, como se quisesse absorver tudo antes da derradeira viagem.

                “Ficarás aqui sentado, a definhar? Não tens outras coisas que queiras fazer antes do fim? Gente para ver?”

                – Meros dias é pouco tempo para fazer tudo o que gostaria. No hospital conheci muitos condenados que se lançaram nesse louco desejo de viver. Não sou tão corajoso. Nem quero passar os últimos dias a correr, sempre com medo de não ter tempo. Não fiz mais que correr desde que parti. Só quero ficar aqui, em paz. Se me permitir, claro.

                Nenhuma resposta aflorou a mente de Joaquim, em vez disso uma mão grande, sólida, nodosa e enrugada agarrou a sua, enquanto a deidade se sentava. Quis pedir-lhe perdão por ter estado longe todos aqueles anos e por não ter estômago para aceitar trocar a vida de outros pela sua, voltando a abandoná-la. Confessar-lhe que apesar da atitude firme e irredutível, estava aterrorizado. Nada disse. Não precisava. Soube-o pelo reconfortante toque que o envolvia como abraço materno. Ela podia não ler mentes ou corações, mas conhecia bem os fiéis. Por mais longe que tivesse estado não deixara de ser seu filho.

                “Estarei aqui enquanto precisares” garantiu, não tendo coragem para confessar-lhe que com a morte dele, o seu último verdadeiro crente, também ela eventualmente definharia, esquecida e só naquela colina. Sem adoradores, seria apenas uma dríade como as outras, velha demais para encontrar nova árvore ou defender-se. Pelo menos passaria os últimos séculos confortada pelas memórias felizes da fé das suas crianças.

Autora.Andréa Oliveira

Imagem: Andréa Oliveira

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