A fotografia girava sobre o seu dedo, cortando o ar em redor como uma lâmina. A velocidade de rotação aumentou, até a mão se abrir de súbito, paralisando-a. Então ficou a pairar por longos segundos, como que sustida em fios invisíveis. O dedo flectiu-se ligeiramente e, descrevendo um movimento lento, a fotografia verticalizou-se e rodou, de forma a que a imagem encarasse a sua manejadora. Ficaram frente a frente, observando-se, tanto quanto uma fotografia pode observar alguém. Da imagem sorriam-lhe duas pessoas, num reflexo da mais pura felicidade: ela própria, e um bonito rapaz de olhos de safira e cabelos cor de palha. As cabeças encostadas faziam com que os cabelos de ambos se misturassem, e os dedos das mãos entrelaçavam-se.

Soltou um rosnar de fúria e voltou costas à fotografia. Com isto, o feitiço quebrou-se, e o retrato caiu sobre o tampo da mesa, ocultando ambos os sorrisos.

– Voltarás para mim. Encontrar-te-ei, mais cedo ou mais tarde.

Estalou os dedos. O ar zumbiu junto à sua mão e, no instante seguinte, surgiu do nada um punhal flutuante cuja lâmina escurecera do sangue que nela ressequira. Caminhou até à despensa, perseguida pelo eco dos saltos das botas a estalar contra o soalho de madeira. Quando abriu a porta, um primeiro pio aflito escapou-se do seu interior.

Vários pares de olhos fixaram-se nela de imediato, cada um dos quais com uma morfologia muito própria. Alguns dos seus donos expressavam um medo mudo, enquanto outros tentavam dar voz ao pânico ou ao alívio de verem mais do que a escuridão da sua prisão. As asas de uma pomba branca restolharam contra as grades da sua gaiola, chamando a atenção da mulher. O alvo fizera por ser escolhido.

Não se demorou a abrir a pequena portinhola e enfiou nela a mão, crispando-a na pomba e impedindo-a de esvoaçar mais. Tirou-a da sua cela e, com um toque do pé, fechou a porta atrás de si, abafando a esperança de uns e o medo de outros.

A pomba tentou bicar a mão da captora, enquanto era encaminhada para a mesa de madeira, cuja superfície só não parecia tão conspurcada quanto o punhal porque o tom castanho disfarçava a imundície. Vários instrumentos, desde martelo a pregos, passando por taças, frascos e livros, dispunham-se ao alcance da mão. E, entre eles, farpas, quase indistintas à vista desarmada, esperavam por se infiltrar na pele de algum incauto.

Pousou o punhal, para poder manusear o animal, impedindo-o de fugir. Agarrou num prego e, com a mesma mão, prendeu uma das asas da pomba. Pegou no martelo num movimento rápido. No segundo seguinte, uma das asas fora pregada à mesa. A outra teve o mesmo destino, expondo-lhe o peito e o ventre. O animal esperneava cada vez mais.

Muitas colegas suas procediam ao ritual com o animal morto, mas ela sabia que a adivinhação e os feitiços eram mais eficazes quando usados animais em cujo peito ainda pulsava um coração (por mais sujidade que isso causasse). Pelo menos evitava a putrefacção, a qual denegria a visão até da mais visionária aruspicina.

A ponta suja do punhal infiltrou-se por entre as penas do peito da pomba e quebrou-lhe o externo, arrancando-lhe um som desumano que não fez vacilar a bruxa.

O espirro de sangue empapou-se nas penas, antes de ela se atrever a levar lá as mãos e escachar-lhe o peito, descobrindo-lhe as entranhas.

Deixou a mão sentir o calor da vida, o estremecimento dos órgãos internos, e o líquido que os permeava. Procurou o início do canal digestivo. Quando o encontrou, cortou-o, roubando outro estremecimento à pomba. Fez o mesmo com a extremidade inferior e, com cuidado retirou o intestino de entre as restantes miudezas. O fígado seguiu-lhe o caminho, sendo ambos dispostos numa posição meticulosa. Deixou os dedos escarlates passearem na superfície escorregadia, enquanto os olhos se semicerravam em busca de respostas.

– Virá até mim, em breve? – murmurou. – Pelas mãos de outrem…

Nesse preciso momento, o sino da entrada tilintou.

– Em breve…

Arregalou os olhos e correu até à torneira mais próxima. Lavou as mãos o melhor que conseguiu com um sabonete com cheiro a morango, para disfarçar o odor da morte. Mirou as unhas para se certificar de que não ficava qualquer vestígio sob elas.

O sino voltou a tocar, impaciente. Correu para lá e espreitou pelo óculo antes de abrir a porta. Sorriu à mulher com ar de menina, estacada sobre o seu tapete em forma de sapo.

– Bom dia. Li no jornal que tem uma casa para alugar. Não me enganei, senhora… Isabella?

O sorriso da feiticeira aumentou. Se a sua resposta vinha na forma de alguém que lhe alugasse um apartamento, ainda melhor. Uma bruxa honesta também precisava de dinheiro. Aqueles animais não eram roubados, nem mesmo a ração com que os alimentava.

Após uma conversa rápida com a rapariga de nome Sophia, acordaram que no dia seguinte a levaria a ver o apartamento em questão.

Quando regressou para junto da sua mesa de trabalho, a pomba branca havia já falecido. Na sua ausência, e talvez devido a alguma convulsão do animal, um respingo de sangue caíra sobre a fotografia, manchando o rosto do homem.

– Está quase quase, meu amor – murmurou.

Aproximou a fotografia dos lábios e limpou o sangue com uma lambidela lenta e lasciva.

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