Tudo se revelou inútil já que, poucos minutos depois, os soldados do castro entravam no antigo estacionamento. Sem oferecer resistência, foram ambos escoltados para o exterior. Nenhum dos dois conseguiu apreciar a brisa daquela tarde de Outono. As pernas de Walter estavam como borracha, em antecipação ao momento em que iria enfrentar Artur. Apesar de saber que era apenas uma questão de tempo, suspirou de alívio ao descobrir que ele não estava naquele grupo de busca.

Durante o resto do dia, caminhou de volta para a cidade, pois não havia nenhum cavalo para ele. À noite não lhe deram nada para comer e ele sabia qual a razão. Era um homem morto. Durante a noite, não conseguiu dormir, na esperança em que houvesse uma oportunidade de fuga. Não teve sorte, já que um dos homens ficou de sentinela o tempo todo.

Eva seguia no outro extremo da fila. As vezes em que conseguira ver a sua expressão, encontrara-a sempre com os olhos vermelhos. Walter sabia que ela sofreria, mas o pai não iria castigá-la severamente. Ao fim de contras, Walter não tinha ilusões em quem Artur iria colocar as culpas.

A meio da manhã do terceiro dia, voltaram à cidade. O espírito de Walter estava completamente quebrado, pois era a segunda vez que percorria aquela rua como prisioneiro. Desta vez levaram-no para as catacumbas, por baixo do quartel militar. Trancaram-no numa cela minúscula, a qual continha somente um recipiente com água e um penico. As paredes eram de pedra nua e a luz entrava por uma fresta diminuta, que ficava acima do nível do olhar.

Ao fim da tarde, a maciça porta de carvalho foi destrancada e Artur entrou.

– Tranquem-me e só abram quando vos der o sinal

Assim que cumpriram a ordem, ele virou-se finalmente para Walter.

– Não tentes nada de idiota – aconselhou, colocando a mão no punhal que trazia à cintura.

O inventor permaneceu sentado e limitou-se a acenar com a cabeça. O líder do castro retirou um pão da algibeira e atirou-lho. Assim que o apanhou, sem pensar duas vezes, começou a comê-lo. Não conseguia mais suportar a fome.

– Eu sei o que pensas de mim, que sou um monstro. Não é verdade? Não precisas de o confirmar. Lembras-te da analogia que eu te dei do jogo de xadrez, no nosso primeiro encontro? Porque raio é que tentaste passar-me a perna?

Walter comera demasiado depressa, de modo que interrompeu o discurso com um ataque de soluços. Artur esperou pacientemente que o inventor se acalmasse.

– Um monstro… até o meu próprio irmão ostracizei. Sabes qual foi a razão? Ele prejudicava o castro. Desde que lidero que nunca quis o poder como um fim, era apenas como um meio. A sobrevivência da minha comunidade é tudo o que me interessa. Eu sou responsável pela morte dos teus conterrâneos, já que eles nunca teriam fugido se não tivesse criado certas condições. E digo-te, durante o tempo em que liderei, nunca deixei de aplicar uma pena, independentemente da pessoa, desde que a culpa fosse estabelecida. Acho que estás a ver o que te espera. Agora diz-me, porque é que tentaste fugir?

– Eu tinha medo que descobrisse a relação amorosa que tinha com a sua filha.

Artur soltou uma gargalhada enorme.

– És um idiota, eu sempre estive um passo à tua frente. Sabia dessa relação antes de acontecer. Bastava observar a reacção dela quando eu lhe falava de ti ou cronometrar o tempo que ela passava no teu quarto. Devo dizer-te que ela foi a única pessoa que não tentei manipular. Infelizmente, nem o desafio de resolver um problema fulcral à existência humana, nem o medo, te conseguiriam prender aqui para sempre. Eu sabia disso, essa foi a razão de ter morto os outros cativos. Tudo para te impingir mais medo. A realidade é que, mais tarde ou mais cedo, eu sabia que irias fugir. No início, fiquei extremamente aliviado, pois parecia que a alavanca surgira onde eu menos esperava. Não ousei interferir, pois receava estragar tudo. Pelos vistos falhei, porque ela acabou por te incitar à fuga. Preciso de ti e não posso evitar matar-te, porque isso destruiria a ideia de justiça que tanto me custou a construir. Agora que já conheces o problema, propõe uma solução.

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