Um jovem de olhos azul-escuros e cabelos ruivos curtos deslizou para fora de um livro aberto numa mesa robusta.

            – Estás atrasado, Munin – observou Hugin, espreitando o irmão mais velho por cima dos óculos em meia-lua, enquanto ele sacudia a poeira. – Como estava a Hester?

            – Doida como sempre. Tenho de deixar de ir aos “Engenhos Mortíferos” ou ela ainda me corta o pescoço – previu, deslizando pelo tampo para mais perto dela, sentando-se de pernas cruzadas sobre a mesa. – Atrasado para quê, mana?

            – Não te faças sonso. Sei muito bem que não te esqueceste – retaliou, pousando o livro e pondo a língua de fora, ao ver-lhe o sorriso trocista.

            – Não achas que estamos velhos demais para aniversários? Já tivemos ambos mais de 560…

            – Chiu! Nunca se é velho de mais para receber prendas.

            Munin não partilhava do entusiasmo. Afinal eram Leitores, podiam tirar qualquer objecto ou ser vivo dos livros, até viajar pelos seus mundos fictícios. Ainda por cima, viviam na Biblioteca, o receptáculo de toda a criação literária do Homem. Hugin podia ter as prendas que quisesse. Não obstante, tendo em conta que ela era a sua única familiar e companhia entre aquelas colossais estantes, não lhe custava nada aturar uma troca de prendas anual para a fazer feliz.

            – Dá-me, dá-me – pediu a jovem com mais de 560 anos, com um entusiasmo infantil, quase deixando cair o saco preto, de onde tirou uma esfera de vidro cheia de vapor branco em constante movimento. – É lindo, mano. O que é?

            – Estás a ver o fumo branco? É um sonho. Basta meteres o globo na mesinha de cabeceira e sonhá-lo-ás.

            – Irei sonhar com o quê?

            – Spoilers – respondeu, com um sorriso enigmático. Viu a irmã ficar um pouco desconfiada, temendo uma partida, mas recusou-se a explicar. A surpresa seria muito melhor se ela a descobrisse em primeira mão, vendo que mandara fazer por encomenda um sonho que apenas ele lhe poderia dar, produtos das memórias felizes que partilharam na infância.

            – Não arranjaste isto nos “Engenhos Mortíferos”, pois não?

            – Nã, só a escondi lá – disse, piscando olhos em cumplicidade. – Comprei-o numa cidade muito mais amigável que a móvel Londres de Reeve: Urbania. Por acaso esta também se move, mas de maneira diferente. Foi criada por um autor português…

            As gargalhadas da irmã foram tão súbitas e tornaram-se tão fortes que Munin teve medo que ela largasse a esfera e caísse da cadeira, agarrada às costelas.

            – Que foi? – Hugin nada disse, limitando-se a tirar algo de um saco que tinha sob a mesa, não conseguindo parar de rir. Era uma garrafa, de líquido dourado no interior, e quando o irmão leu o rótulo também se desmanchou a rir. – Ah! Ah! Ah! Só podes estar a brincar.

            Reductio Ad Absurdum, um licor destilado a frio a partir de uma selecção de plantas, a bebida preferida de Urbania, a cidade em permanente movimento e reinvenção. Em biliões de livros de onde poderiam ter tirado uma prenda, ambos escolheram exactamente o mesmo: “Urbania” por Carlos Silva.

            – Quais são as possibilidades? Ah! Ah! Ah! Espera aí, se já visitaste Urbania, como é que não sabias o que a esfera era?

            – Ó pá, o que há mais para aí são esferas com fumos manhosos, que fazem de tudo um pouco. Sabia lá.

            – Ah! Ah! Parece impossível… Foi uma boa prenda, mana – agradeceu, já se imaginando a sentir o gosto adocicado e os suaves aromas florais do licor. – Esta pomada faz absinto parecer leitinho.

            – “Ao primeiro copo, verão as coisas como desejavam que elas fossem. Ao segundo, como elas não são. Ao terceiro, verão as coisas como elas realmente são e isso é a coisa mais horrível no mundo.” – Citando Oscar Wilde pousou dois minúsculos copos de pé alto diante do irmão.

            – Uma pomada muito boa… Que dizes a darmos um saltinho a Urbania e tratar da garrafinha por lá?

            – Ok, ok, já vi tudo… Estás de olhos em qual das moças? – troçou, desconfiada.

            – Nenhuma… Porque dizes isso? – balbuciou, ficando com a cara tão vermelha quanto o cabelo.

            – Pois, pois. É o que veremos. Ei, podemos ir ao miradouro do Sol Poente? Quero vê-los tentar…

            – Olha aí, Hugin! Spoilers

Rui AlexImagem: Rui Alex

http://jackolta.blogspot.com

Anúncios