Dadas as circunstâncias, não sabia o que responder. Queria confiar contudo, a sua intuição dizia-lhe para ter cuidado. Detestava tomar decisões sem ter todas as informações.

– Se não confias em mim, o melhor é a nossa relação acabar aqui. Não precisamos de fugir. É mais fácil, nem sequer preciso de arriscar a minha vida por ti. Tu continuas com a tua vida e eu com a minha. Como fui parva ao achar que te preocupavas com os meus sentimentos… – escarneceu Eva, ao aperceber-se da hesitação.

– Chega! – interrompeu-a, falando num tom de voz mais elevado. – Não sabes do que falas! Se formos apanhados, os nossos destinos serão muito diferentes, vê se percebes isso! Se eu tivesse sabido quem eras desde o início, isto nunca teria acontecido.

– É isso que querias? Que a nossa relação nunca tivesse acontecido? – perguntou, com as lágrimas a galgarem-lhe as faces.

Detestava quando as conversas enveredavam por estes caminhos tão rapidamente. Por mais que lhe custasse a engolir o orgulho, não conseguia ficar zangado com ela.

– Não! – confessou, combatendo também a vontade de chorar.

Num impulso abraçou-a, apertando-a com força.

– Desculpa, eu não queria ter dito aquilo.

– Eu também não.

Esta pequena zanga fê-lo perceber que temia mais perdê-la do que a ira de Artur. Quebraram o abraço e beijaram-se apaixonadamente.

Como precisava de limar algumas arestas do plano, Eva deixou-o pouco depois.

Walter enfiou os seus parcos pertences na pasta e esperou pelo almoço. Este foi-lhe servido ao meio-dia exacto e consistia somente num peixe salgado acompanhado por um pão de trigo. Ao comer, não pôde deixar de pensar que aquela poderia ser a sua última refeição. Quando terminou, colocou o prato de lado, descalçou-se e fechou a portada. A escuridão invadiu a divisão.

Deitou-se, mas não conseguiu adormecer imediatamente. A sua mente tentava discernir qual o melhor caminho a seguir. À medida que acrescentava dados à equação, esta ia ficando mais complexa e os resultados mais confusos.

Acordou sobressaltado com duas pancadas suaves na porta. Era o sinal que ela lhe costumava dar. Levantou-se estremunhado e dirigiu-se à porta. Não falou, já que receava uma armadilha.

Num movimento, abriu a porta e deu de caras com Eva, que trazia o mesmo capuz daquela manhã. Num impulso, espreitou para o corredor e, não vendo mais ninguém, deixou-a entrar.

– Está na hora – explicou-lhe ela, estendendo-lhe outro capuz, antes de continuar. – Toma, veste isto.

O inventor obedeceu-lhe e ambos abandonaram o palácio pela escada de serviço pouco depois. Haviam sido abençoados com corredores vazios, de modo que não se cruzaram com ninguém até chegarem à rua. Deram a volta ao edifício e dirigiram-se aos estábulos.

– Vamos sair pelo portão principal antes que o fechem para a noite. Ainda pensei que podíamos sair pela antiga porta de carga, só que podia soar demasiado suspeito – revelou-lhe enquanto selava um garanhão castanho-escuro.

Ele assentiu e, uns minutos depois, atravessavam a entrada da cidade, cada um no seu cavalo, sem que ninguém os tentasse parar. Ainda nervosos, desceram a encosta do planalto, usando a mesma rota que os restantes viajantes. Sempre receosos, tomaram a direcção Sul no caminho principal. Durante um par de horas seguiram pela estrada a trote, até ao pôr-do-sol. Quando ficaram sozinhos, ao escurecer, abandonaram o caminho, seguindo a corta-mato.

Era lua nova, por isso inicialmente avançaram com cautela. Contudo, por insistência dela, desataram a galope pouco depois. Ambos queriam afastar-se tanto quanto possível da cidade antes do amanhecer. Por aquela altura, já deveriam ter dado pela sua falta. Todavia, pela primeira vez não se preocupou com isso. A sensação de liberdade apoderara-se inteiramente dele.

Inesperadamente, Eva foi projectada para a frente e Walter só teve tempo de fazer o seu cavalo parar.

– Eva! Estás bem? – perguntou ao desmontar.

– Sim, só me dói um pouco o ombro – queixou-se com um gemido.

O cavalo havia tropeçado numa depressão do terreno. Ao palpar-lhe o ombro, percebeu que se tratava apenas de uma ligeira contusão. O maior problema era o cavalo que não se conseguiria levantar, pois tinha partido uma pata ao embater numa rocha. Eva aproximou-se dele e afagou-lhe a cabeça com carinho.

– Deixa o cavalo! – protestou o inventor.

– Cala-te! – ordenou a rapariga. – Não podemos deixá-lo aqui assim!

– O que é que queres fazer, ficar aqui até que nos apanhem?

– Não, dá-me só um momento.

Walter não respondeu, tentando tolerar as manias dela. Pouco depois, viu uma gorda lágrima a descer pela bochecha de Eva, enquanto esta afagava a cabeça do cavalo.

– Desculpa Elea – murmurou, beijando a testa da égua.

Subitamente, empunhou a faca que trazia ao cinto e, apontando ao pescoço, deu-lhe o golpe de misericórdia.

Seguiram caminho a galopar no outro cavalo. Porém, devido ao peso excessivo do par, este cansou-se rapidamente, tendo de prosseguir a trote. Quando o céu começou a clarear, estavam perto de uma vila abandonada da época do pré-Rerenascimento. Os telhados estavam caídos, carcaças de veículos antigos jaziam pelos cantos e a fauna e flora tinham invadido o espaço. Não parecia que nenhum humano ali tivesse posto os pés durante anos. O cavalo estava exausto e, por isso, consideraram que seria melhor passar o dia na cave do que fora outrora um prédio. O espaço era amplo, de modo que puderam prender o cavalo num dos pilares e instalar-se a alguma distância, para evitar o forte cheiro. Comeram restos que ela havia trazido da cozinha e adormeceram nos braços um do outro.

Walter despertou com uma voz de comando. A primeira impressão fora que a voz havia sido fabricada na sua mente. Contudo, ao ver que Eva também acordara, percebeu que estava enganado. O medo tomara conta dele, ao ponto de querer ser apenas um rato e esconder-se num canto. Ao ver a angústia no olhar dela, percebeu que não tinham saída. Paralisados pelo receio, não ousaram mexer-se, na esperança que não os encontrassem.

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