– Calma ai! Estás a brincar comigo, certo? – inquiriu Walter, forçando um sorriso.

– Não, eu nunca te mentiria… – protestou Eva, começando a chorar – eu nunca te disse, porque sabia que tu nunca te aproximarias de mim se soubesses. Sabes, eu apaixonei-me por ti desde o primeiro momento…

– Chega! Se ele vier a saber, vai-me matar de certeza! Como é que pudeste ser capaz de me fazer uma coisa destas? – ripostou o inventor, visivelmente furioso.

– Calma. Eu tenho um plano! Podemos fugir os dois…

– Fugir… – riu-se Walter histericamente, sentindo-se desesperado – Ninguém consegue fugir daqui.

Relembrou os gritos dos soldados ao serem brutalmente executados, quase que sentindo as dores que tal pena acarretava.

– Vais ter de confiar em mim.

– É mais fácil de dizer do que fazer – protestou, sentindo-se encurralado.

– Não confias em mim? – inquiriu Eva, com um olhar inquisidor.

– Claro que confio! – esclareceu, aborrecido por as conversas enveredarem sempre no mesmo sentido.

– Então age como tal. Agora vai à reunião e tenta agir normalmente. Daqui a algumas horas, eu explico-te o meu plano, ainda preciso de fazer mais uns ajustes.

Ela beijando-o e desapareceu de seguida por uma rua lateral.

Walter voltou à rua principal. Ao olhar a torre do relógio, percebeu que já não teria tempo para visitar o outro experimento. Tentou esconder as suas emoções enquanto se dirigia ao palácio, mas tal não era fácil devido ao tumulto que se tinha apoderado dele. Já dentro do palácio, compôs as suas roupas, retirou os papéis da pasta e esperou que o chamassem.

A audiência iniciou-se à hora prevista. Ao atravessar o salão, não pôde deixar de se sentir mais oprimido do que se sentira quando ali fora trazido pela primeira vez. Era um homem morto, caso Artur desconfiasse.

O concílio estava reunido, mas o inventor sabia que a conversa aconteceria essencialmente entre ele e Artur. Inicialmente, o diálogo decorreu no mesmo tom educado a que estava habituado, com uma troca mútua de cumprimentos, seguindo a etiqueta. Durante o processo, observou o líder cuidadosamente, relaxando um pouco ao ver que não havia qualquer sinal que revelasse conhecimento da relação amorosa.

– Já chega de formalidades. Caro doutor Ramos, pode agora apresentar os resultados do seu trabalho ao concílio? – pediu Artur.

– O projecto para a bomba de água foi aplicado e funciona como previsto

– Contudo, esse sistema ainda consome carvão…

– Exacto, depende do vento para erguer a água. Conseguimos bombear um pouco mais de água do que a cidade consome. Todavia, o reservatório não é suficiente para abastecer a cidade mais do que um par de horas. No entanto, devo sublinhar que conseguimos poupar várias centenas de quilos de carvão por dia.

– Ninguém está a colocar isso em causa. Tendo em conta a crise que nos ameaça, este concílio não considera que isso seja suficientemente bom. Tem alguma sugestão de melhoramento? – inquiriu Artur, cujo tom de voz denotava impaciência.

– Espero converter os moinhos em geradores eólicos, guardar a energia obtida em condensadores e usá-la quando não houver vento…

– O que é um condensador e como é que funciona? – interrompeu Aristides.

– Muito simples. Pegamos num recipiente com líquido e mergulha-se dois fios de cobre nele. Ao passar corrente eléctrica, iremos carregar o líquido com energia. Basta ligar esses dois cabos e recebemos essa energia de volta.

– E isso funciona? – duvidou Aristides.

– Sim, o aparato que construí nos jardins prova isso mesmo.

– Parece-me um bom tópico. Por favor, fale-nos da máquina que instalou no jardim – solicitou Artur.

– Alguns metais geram corrente eléctrica quando expostos à luz solar. Tendo isso em conta, eu montei um aparato que recolhe essa energia e a guarda nesses tais condensadores. O objectivo é providenciar iluminação durante a noite. Para tal fazemos passar corrente por um filamento de tungsténio dentro de uma ampola, cujo ar foi previamente retirado. Isso poderia poupar bastante óleo ao castro…

– Óleo não é um recurso crítico! – protestou Igor, o mais velho dos assessores.

– É verdade, mas o facto de reduzirmos a quantidade de materiais que temos de elevar diariamente cria-nos a possibilidade de reduzir a velocidade do elevador e assim operá-lo somente com a força da água.

– Você parece ter um plano sólido e abrangente, que considero adequado – decidiu Artur, fazendo sinal aos assessores para não interferirem mais na conversa. – Agora diga-me, o que pretende fazer nos próximos três meses?

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