– O mesmo de sempre… Quando há vento, conseguimos bombear mais água do que gastamos, só que é impossível guardar água para mais do que duas horas. Quando não há vento, temos de usar carvão.

– Obrigado. Estou perfeitamente consciente desse problema e estou a pensar numa solução – explicou Walter, despedindo-se do monitor.

Sem perder tempo, dirigiu-se à parte industrial da cidade. Ali estava um dos seus maiores desafios, o enorme elevador, cuja função era abastecer matéria-prima e comida. Provavelmente, era o projecto mais importante, pois o mecanismo gastava várias toneladas por dia. A sua primeira ideia fora represar um curso de água que passava ali perto e usar a força mecânica para elevar a mercadoria. A ideia não fora coroada com sucesso, pois a corrente não providenciava força suficiente para mover a maquinaria. Como segunda tentativa, fizera rodar um dínamo no interior de um enrolamento de cobre, criando uma corrente eléctrica por indução e, com isso, fizera funcionar um pequeno motor eléctrico, que não era mais do que inversão do processo anterior. A eficiência não era elevada, mas o facto de conseguir criar uma fonte de energia eléctrica contínua era um marco importante.

Desceu pelo teleférico até ao vale, tomando algumas notas sobre o progresso dos trabalhos. O plano era usar vários moinhos de água em pontos diferentes e ligá-los a vários motores, de modo a conseguir elevar a mercadoria sem usar carvão.

Ao chegar ao fundo, foi recebido pelos seus dois assistentes, ambos com um semblante carregado. Toda a área se encontrava vedada, pois vários acidentes tinham já ocorrido, felizmente nenhum deles ainda fatal.

– Bom dia, Paulo. Como é que estão a correr as coisas?

– Nada bem, houve outro acidente. Um dos nossos rapazes sofreu um choque. Felizmente, os médicos já o observaram e ele está vivo. Têm várias queimaduras e está inconsciente, tão cedo não volta ao trabalho.

– Raios… – praguejou Walter, controlando-se de seguida – Ainda bem sobreviveu, não iria conseguir enfrentar a família. Quantas vezes é preciso eu repetir que ninguém pode tocar nos cabos enquanto a máquina está em funcionamento. Avisei-vos desde o primeiro dia.

Calou-se, pois apercebeu-se que levantara novamente a voz.

– E que mais? – perguntou o inventor, depois de respirar fundo.

– Instalámos o segundo moinho. Parece ter apenas uma fracção da potência do primeiro, como previsto, mas o efeito é mais severo do que esperávamos – reportou o mais baixo do grupo.

– Provavelmente teremos de construir um dique e fazer fluir o ribeiro por um único moinho – comentou Walter, desanimado. – E tu, David, tens alguma novidade?

– Ainda nada, o cobre continua a aquecer mais do que esperávamos. Até agora não há problemas, mas quando a corrente aumentar, o sistema poderá não aguentar – respondeu o homem que, apesar de ser bastante encorpado, parecia recear o inventor.

– Temos de insistir com o pessoal da metalurgia para nos fornecerem fios com menos impurezas, o que significa que teremos de mudá-los todos e, provavelmente, também o enrolamento do indutor. Espero que pelo menos a eficiência aumente – explicou Walter, despedindo-se dos trabalhadores.

Tinha esperança que, ao diminuir a quantidade de carvão usada pela cidade, conseguisse operar o elevador a uma velocidade mais baixa e exclusivamente com energia eléctrica.

Tomou o teleférico de volta e amaldiçoou a velocidade a que este se movia. Ainda precisava de visitar o experimento mais importante, ao qual dedicava a maior parte do seu tempo. Quando a cabine parou no cais, ele saiu, com o intuito de chegar rapidamente aos jardins.

Ainda não tinha dado dois passos quando sentiu uma mão no ombro.

– Preciso de falar contigo – ouviu dizer uma voz familiar atrás de si.

Apesar de ter reconhecido quem o chamava, quando se voltou ficou surpreendido por ver Eva. Esta estava com a cabeça tapada por um capuz e a sua expressão denotava um grande nervosismo.

– Ah, és tu! O que fazes aqui?

– Preciso de falar contigo, é urgente – pediu em voz baixa.

– Podemos falar logo a seguir à reunião. Agora estou atrasado e ainda tenho que ver a estação que construí no jardim – concedeu o inventor, mostrando intenção de continuar o seu caminho.

– Eu sei, mas isto é mais importante – silabou a rapariga, falando ainda mais baixo e notando-se um tom de aborrecimento com tanta hesitação.

– O que é que pode ser mais importante que a reunião? – inquiriu Walter, ficando irritado com tanta insistência.

– A tua vida está em risco. Vem comigo, eu explico-te – ordenou Eva, agarrando-o pelo pulso.

Deixou-se guiar através das ruas estreitas. A sua mente tentava perceber porque razão a sua vida estaria em perigo. Qualquer que fosse o caminho que as suas conjecturas seguissem, iam sempre parar a Artur. Percepcionava o líder do castro como um homem que não ligava a meios para atingir os fins. Por baixo daquela fachada de homem civilizado e educado, parecia haver um dirigente implacável e pouco tolerante. Questionava-se se ele seria capaz de o assassinar assim que terminasse a sua tarefa. Ao assumir o ponto de vista do governador, soube logo que seria isso que ele faria.

Eva parou num beco sem movimento. Walter notou que ela trazia os olhos vermelhos, deduzindo que estivera certamente a chorar.

– Eu acho que o meu pai descobriu a nossa relação… – revelou a jovem.

– Já percebi, eu falo com ele. Eu gosto de ti e caso contigo para não haver mais problemas. Já era tempo de assumirmos… – prometeu, pensado que ela estava a exagerar.

– Pára! Ele mata-te quando souber! – vaticinou ela, elevando a voz.

O inventor sabia ser uma pessoa respeitada no castro, em parte por ser honesto e também por estar a conseguir progressos, dos quais toda a comunidade dependia.

– Espera lá, quem é o teu pai?

– Artur Olivais, o líder do castro – revelou com um ar sério.

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