O inventor parou e olhou-o, surpreendido. Parecia-lhe impossível aquele homem estar sempre um passo à sua frente. Apercebeu-se, tarde demais, que se o líder tinha uma suspeita, o seu comportamento confirmara-a. Só lhe restava continuar a andar e ver o que ele tinha para lhe mostrar.

Pararam de frente para uma fornalha, cujo vapor fazia movimentar uma das linhas de teleférico. A construção tinha o tamanho de uma pequena moradia. Um homem colocava regularmente carvão no forno.

– Está a ver esta fornalha? Tenho a certeza que este tipo de equipamento lhe é familiar. Pode explicar-nos como é que funciona?

Walter olhou-o zangado. Não lhe tinha mostrado nada de extraordinário e ainda queria que ele embarcasse noutro dos seus esquemas mentais.

– Porque raio é que você não vai directo ao assunto? – protestou, agitando violentamente os braços.

– Tenha calma, esse temperamento faz mal à saúde. Acho que não vai contra a sua consciência explicar o funcionamento da máquina a vapor, assim os meus assessores ficam todos com o mesmo nível de conhecimento – apaziguou-o Artur, soltando uma gargalhada ligeira.

O inventor não pode evitar rir-se também, face ao insulto que ele dera aos seus adjuntos. De algum modo, aquele homem extraía de si as emoções, como um músico fazia com um instrumento.

– A fornalha aquece a água, que é transformada em vapor. Usando a pressão daí resultante, faz-se movimentar o pistão e assim se gera um movimento circular que pode ser usado para inúmeros fins…

– Exacto, eu não explicaria melhor. Agora, peço-lhe que deixe parte da aplicação prática e que nos diga quais são os requerimentos da máquina.

– É necessária uma metalurgia suficientemente avançada para fundir as partes necessárias, água em estado líquido e carvão.

– Meu caro, julgo que observou um pouco do nosso modesto castro. Diga, qual acha ser a maior limitação que enfrentamos no uso de tal maquinaria?

– Vocês parecem possuir a técnica necessária para fundir o aço e água corrente em abundância – Walter parou e olhou Artur nos olhos.

Finalmente percebera o problema que afligia aquela comunidade.

– Falta-vos o carvão.

– Precisamente! O carvão também é um recurso finito. Ainda há poucos minutos nos relembrou as consequências de uma guerra motivada por escassez energética. Quando o carvão não for suficiente para todos, haverão outras guerras – concluiu o líder, com um gesto de triunfo.

– Isso é alarmismo! Se bem me lembro, um dos génios e visionários da era nuclear disse que não sabia como seria a terceira guerra mundial, mas que a quarta seria com paus e pedras. Se compararmos o potencial bélico dessas nações beligerantes durante o grande cataclismo e o que possuímos agora, provavelmente eles nos chamar-nos-iam de primitivos – interveio Aristides, colocando um braço em frente de Artur como que impedindo-o simbolicamente de avançar.

– Meu caro Aristides, eu nunca esperei que levasses esta ameaça a sério – revelou, fazendo-lhe um sinal para que baixasse o braço.

De seguida, virou-se para os restantes.

– Não nos iludamos ao pensar que, por via das restrições tecnológicas, uma guerra à escala mundial não será tão terrível como a anterior. Pelo contrário, será mais longa e matará mais pessoas. Temo que qualquer nação que enfrente a obliteração possa cair na tentação de desenvolver e usar tecnologia proibida. Se isso acontecer, a ameaça de extinção pairará mais uma vez sobre a nossa espécie.

Walter não precisava de mais explicações, compreendera finalmente a razão para o seu sequestro. Artur sabia muito bem o que fazia, pois só um inventor com a sua especialidade e bastante capacidade poderia resolver o problema.

– Exijo saber se este homem pode ou não resolver o problema! Já estamos a prolongar esta conversa há demasiado tempo – protestou Xavier, visivelmente impaciente.

– Xavier, espera um momento, já iremos abordar esse assunto. Caro doutor Ramos, peço desculpa pela interrupção. Consegue estimar quantos habitantes tem o castro?

– Estimei que haverá cerca de vinte a trinta mil.

– É uma boa estimativa. Se juntarmos os que vivem no vale e as vilas satélite, são cento e dez mil habitantes, segundo o último censo. Consegue estimar quanto carvão é necessário por ano para manter este nível tecnológico?

Walter fez o cálculo de cabeça, ficando mais consciente do problema.

– Um quarto de milhão de toneladas por ano. Quantas minas activas possuem?

– É uma estimativa admirável, pois está muito perto dos valores oficiais. Em todo o território, há apenas uma mina – confessou Artur com um sorriso amargo. – A capacidade foi avaliada e o carvão nesse jazigo situa-se entre um milhão e um milhão e meio de toneladas. Ou seja, há energia para mais quatro a seis anos. A questão que está na sua cabeça é muito facilmente respondida, foram feitos grandes esforços para encontrar outras minas e todas praticamente infrutíferas. O carvão encontrado nos últimos dez anos não dá sequer para suprir as necessidades energéticas desta cidade durante meio ano. Aristides, conta-lhe o que ficou decidido no último concílio estratégico-militar do castro.

– Não considero apropriado contar a um estranho as nossas resoluções internas, quando nem sequer o fazemos ao comum dos cidadãos – objectou outro dos assessores, um homem baixo e redondo.

– Fábio, ele precisa de saber para melhor desempenhar o seu trabalho. Aristides, por favor, explica ao senhor Ramos quais as consequências da escassez energética.

– Entraremos em guerra, tentando expandir o território para Norte, de modo a obter as minas de carvão aí existentes.

– Porquê? – questionou Artur de um modo retórico.

– Porque caso não o façamos, estimamos que metade da população diminua pelo menos um terço, nos dez anos seguintes ao fim do carvão.

– E quais são as reservas existentes a Norte? – insistiu o líder do castro.

– Estimamos algo entre sete a oito toneladas.

– Como vê, caro doutor Ramos, a guerra seria apenas uma solução temporária. É necessário aceder e controlar outras formas de energia. Agora percebe porque está aqui? Pode explicar a estes senhores qual é a sua especialidade?

O inventor olhou os adjuntos com confiança no olhar. Passou a mão pelo cabelo para afastar o nervosismo, como costumava fazer antes de qualquer apresentação importante na Academia Imperial de Ciências.

– Eu estudo a electricidade e o seu potencial para substituir o carvão como fonte de energia.

Nesse momento, Walter ficou estupefacto com a sua própria reacção; a escolha de palavras e gestos de Artur tinham sido impressionantes. O líder do castro encontrara a alavanca certa.

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